Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

O medo não passará

Pela segunda vez, a clara maioria dos professores do Agrupamento Vertical de Escolas Dr. Garcia Domingues disse não à entrega dos objectivos individuais.

Medo?! Medo apenas do dia em que tenhamos que engolir os nossos princípios e a nossa dignidade.

Haja coragem!

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

Os que lutam

"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis".

Bertold Brecht

Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

Texto 11

Este tempo exige pessoas como nós


Caros colegas,

Não, não se preocupem...Não é mais um testamento! Vou procurar ser breve...

Nada se alterou nas últimas semanas. Excepto...Excepto a humilhação pública! Temos sido tratados na praça pública, por ambos os Secretários de Estado, como garotos aos quais se pressiona e fazem ameaças veladas ou sobre os quais se exerce a mais descarada das chantagens.

Resta saber como, perante isto, vamos proceder? O que eles pretendem de nós é mais claro do que nunca. Para não perderem a face perante a opinião pública, estão dispostos a aceitar tudo desde que alinhemos na farsa.
Mas alguém duvida ainda, que se decidíssemos todos entregar objectivos idênticos e se os avaliadores atribuíssem um "bom" a todos os avaliados, o Ministério assinaria, de bom grado, por baixo?!
Qualidade no ensino?! Meus amigos, aqui trata-se apenas de fazer crer, à sociedade portuguesa, que se avalia…Num teatro de farsas, todos os golpes são permitidos desde que a audiência continue iludida e entretida.

Perante isto restam-nos duas alternativas:
1ª) Como temos feito sempre até ao passado recente, alinhamos em mais uma farsa do Ministério, enterrando de vez a hipótese de alguma vez haver uma avaliação credível que premeie os melhores. De igual modo, garantimos que estamos a passar a mensagem, a quem nos governa, que somos sensíveis às pressões e chantagens. O que não deixará de ser um inequívoco sinal para o futuro…

2ª) Continuamos a resistir até ao fim! Porque em causa não está uma ficha, duas fichas ou três fichas, mas uma questão de princípio em não alinhar num processo burocrático, errático e ilusório, montado para, uma vez mais, se distrair a atenção do que é essencial, continuando a cavar a sepultura do ensino público português.

Como sempre, e porque só tenho uma palavra, CONTINUO A NÃO ENTREGAR OS OBJECTIVOS INDIVIDUAIS.

Recuso-me a ser avaliado? Não! A porta da minha sala de aula está aberta, como sempre, para colegas, coordenadores de Departamento, membros do Pedagógico, Executivo e demais órgãos da Escola/Agrupamento; como abertas estão para qualquer membro da Direcção-Regional de Educação ou do Ministério da Educação; como abertas estão para qualquer pai ou demais elemento da comunidade educativa em que me insiro.
Nem poderia ser de outra forma, pois estaria a assumir uma posição hipócrita, perante tudo o que sempre defendi.

Recuso-me, isso sim, é a dar o meu aval a um processo que visa perpetuar e premiar as mesmas práticas medíocres que nos conduziram ao presente…Gosto muito de ser professor, mas não ao ponto de ter que engolir a minha dignidade.

Claro que a escolha da opção 1 também comportará algumas vantagens; pese embora, de momento, não vislumbre nenhuma…

Optar pela opção 1 tem, isso sim, duas implicações muito importantes:

a) Ao alinharmos no facilitismo do "Simplex", deixaremos de ter qualquer moral para pregar a exigência e o rigor aos nossos alunos e aos nossos filhos.

b) Se cedermos à chantagem e à pressão, deixaremos de ter qualquer moral para ensinar o valor da palavra e da coragem aos nossos alunos e aos nossos filhos.


Posso estar enganado, mas quer-me parecer que se alguém nos tenta convencer de algo, não pela força dos argumentos, mas pela suposta força da ameaça, é porque não terá muita razão (?!)


Acredito que, tal como eu, todos prezam a sua palavra. E é disso que precisamos. Não precisamos de heróis, nem de actos heróicos.

Heroísmo é uma mãe solteira que arranja dois empregos para sustentar a sua família.

Esta luta não precisa de heróis, necessita apenas de professores leais à sua palavra e às suas convicções.

Medo do Ministério? Não! Tenho medo de não conseguir dormir com um peso na consciência, de não conseguir olhar-me no espelho ou de deixar de ter prazer no acto do ensinar.

Pensando bem, há coisas bem mais assustadores do que um mero Secretário de Estado ou um Ministro da República.

Este tempo não necessita de heróis, necessita de pessoas como tu e eu…

Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

Texto 10

Pontos d’Escrita: Para a avaliação dos políticos

” (…) avaliar é atribuir valor: é determinar se as coisas são boas ou más. A avaliação política consiste, portanto, em atribuir valor às políticas, às suas consequências, ao aparato institucional em que elas se dão e aos próprios actos que pretendem modificar o conteúdo dessas políticas.” (Barry, 1975).

Avaliação tem sido a palavra que porventura terá vertido mais tinta nos últimos tempos, fruto de intervenções mais ou menos honestas nos meios de comunicação social e em conversas de rua. Despoletou pelo menos uma reflexão por parte dos cidadãos, coisa rara nos tempos que correm, pois tudo indiciava que, tal como Eugénio de Andrade escrevera um dia, o nosso estado de passar ” (…) pelas coisas sem as ver, / gastos, como animais envelhecidos: /se alguém chama por nós não respondemos, / se alguém nos pede amor não estremecemos, / como frutos de sombra sem sabor, /… caindo ao chão, apodrecidos”, estaria entranhado em nós, colado à nossa pele, confundindo-se com o fado do nosso descontentamento plácido e lacrimejante, da cruz que a bem dizer, Nosso Senhor Jesus Cristo nos concedeu, para expiarmos em terra os nossos pecados.

Reflectindo bem no assunto, acho pertinente convocar-vos para a aprovação dum modelo de avaliação dos políticos, uma vez que me parece ser uma classe à parte, que exigindo avaliações, não se avalia a si própria nem nunca achou pertinente desenvolver com seriedade mecanismos para que tal acontecesse.

Se nós somos eleitores, se escolhemos os nossos governantes, acode-nos o legítimo direito de lhes exigirmos que sejam avaliados, até porque estamos fartos de sentir na pele as crises sociais e económicas justificadas com a culpabilização da Europa, do Mundo, do Universo, ao mesmo tempo que nos alheamos, sentindo o nosso futuro quase como uma fatalidade sem resposta.

Caro concidadão conhece o seu deputado? Aquele que ajudou a eleger? Consegue avaliar o seu desempenho? Estará ele a desenvolver o seu programa com seriedade? Terá atingido os objectivos a que se propôs? Será assíduo e pontual no seu trabalho?

Não?! Então avaliemo-los segundo determinados parâmetros:

A) Cumprimento do horário de trabalho:

Um deputado com um cumprimento de 100% do seu serviço será sem dúvida excelente; com 98% a 99,9% Muito Bom; com 90 a 94% digamos que seria considerado Bom; Com menos de 90% teria um desempenho não satisfatório ou seja negativo.

B) Apoio aos cidadãos que o elegeram:

Cumpriu o serviço e os objectivos a que se propôs? Empenhou-se? Fora do Parlamento desempenhou as suas actividades relacionadas com a componente não política?

Totalmente? Algumas vezes? Raramente? Nunca?

C) Melhorias sociais visíveis:

Houve progresso no país devido à sua intervenção? Que diferenças existem entre a avaliação diagnostica realizada no início do seu mandato e a actual (ao fim de dois anos de trabalho)? Que classificação obteve numa avaliação externa (feita por cidadãos independentes e acreditados junto do povo)? Qual foi o empenhamento e a qualidade da sua participação no círculo que o elegeu? Qual foi o seu desempenho em incumbências que nele foram depositadas? Relacionou-se com a comunidade? Investigou sobre as necessidades dos eleitores? Desenvolveu um trabalho cooperativo com as populações? Lutou dentro do seu partido político para conseguir melhorias visíveis? Planeou bem as suas intervenções? Diversificou estratégias a fim de encontrar soluções pragmáticas para os problemas quotidianos dos eleitores? Estimulou-os na participação cívica activa da resolução de problemas? Foi promotor dum clima estável ao progresso? Promoveu o trabalho autónomo no Concelho dentro do qual foi mandatado? Com que regularidade avaliou o seu trabalho e os resultados alcançados? O seu portfólio reflecte um trabalho criativo e honesto?

Segundo um estudo realizado por Conceição Pequito, professora do Instituto de Ciências Sociais e Políticas, publicado no passado domingo, dia 14 de Dezembro, os nossos deputados têm um compromisso para com o partido ao qual pertencem e não um compromisso para com o cidadão que o elege. Ainda segundo esta investigadora, os políticos são escolhidos consoante a participação em governos anteriores e não segundo os parâmetros de trabalho positivamente avaliados, desenvolvidos no cumprimento de mandatos anteriores.

Muitas vezes elegemos uma figura que nem chega a exercer as suas funções no Parlamento, refiro-me aos que se deslocam para o Poder ou para Empresas Públicas. Existe inclusive, quem não tendo nascido nem vivido em determinada região, desconhecendo inteiramente a realidade da mesma, seja escolhido para representá-la.

Durante o mandato, o deputado respeita as orientações da sua bancada, sendo esta que responde perante o Partido - aqui se reforça a perversidade das maiorias absolutas.

No que concerne a este último parágrafo, tem havido honrosas excepções dentro das quais distingo a do Deputado Manuel Alegre.

Concluindo, e sem me desviar do tema inicial, propunha que todos os deputados da Nação fossem avaliados em cada dois anos de mandato, segundo os parâmetros que acima assinalei, e que sofressem as sanções respectivas, com efeitos imediatos, levando à expulsão dos que não cumprissem com a frase repetida, quase mecanicamente, sem reflexão, sem sentimento, na altura em que aceita o cargo, prometendo que cumprirá “com lealdade as funções” que lhe são confiadas.

Que se implemente uma avaliação séria aos políticos do meu País!
Que se faça justiça, premiando os fazedores e expulsando os impostores.
Se não quisermos perpetuar a distância cada vez maior e real entre eleitos e eleitores, se o nosso desejo é abolir injustiças, compadrios, corrupção, tenhamos a coragem de defender com clareza e honestidade todos os assuntos e decisões que dizem respeito a todos, cidadãos, trabalhadores, votantes deste Portugal, onde neste momento cabe a inquietação de Chico Buarque:

“Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente nalgum canto do jardim (…)

Esperemos estar a tempo de ainda encontrarmos essa semente escondida.

Merícia Passos

Nota: Os parâmetros enunciados acima, e que sugerem tópicos para a avaliação dos nossos políticos, foram “copiados” embora já de uma forma muito simplificada, do Modelo de Avaliação imposto aos professores.


P.S. - Texto publicado no "Jornal do Fundão" de 01/01/2009

Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

Coisas que não gosto nas escolas portuguesas



"Jamais haverá ano novo, se continuarmos a copiar os erros dos anos velhos". (Frase atribuída a Luís de Camões).



Ao contrário do que muito boa gente pensa, os professores estão constantemente a ser avaliados. Porque um professor não se limita a ensinar História, Francês ou outra qualquer matéria. Um professor é também um educador, alguém que transmite ideais e valores.

Por este motivo, os comportamentos e as atitudes de um professor, no meio em que se insere, estão permanentemente a ser escrutinadas pelos demais. É daquelas coisas que advêm da profissão...

Do mesmo modo, uma escola, enquanto colectivo de pessoas, tem um papel perante a sociedade do qual não pode demitir.

Uma escola dever ser, antes de tudo o resto, um espaço de respeito...De respeito para com as pessoas que aí estudam e trabalham e de respeito para com o próprio espaço físico da escola, o construído e o natural.

Para mim, uma escola onde não se respeita a árvore não tem moral para pregar a sua importância no mundo. Não se pode pretender ensinar as crianças a amar as árvores fazendo cartolinas no "Dia da Árvore" e, em simultâneo, ser conivente com a mutilação das árvores existentes na própria escola.

Nenhuma cartolina, por mais bonita que seja, pode apagar, da memória de um jovem, a imagem destes monstros retorcidos pela ignorância humana.

Se eu sou a pessoa que sou, com todo o amor às árvores que tenho, não o devo a qualquer desenho ou composição que alguma vez possa ter feito sobre a árvore.
Devo-o, entre outras coisas, à imagem das duas enormes tílias do recreio da minha antiga escola primária. São as imagens das brincadeiras sob as suas copas que eu retenho quando fecho os olhos...

Tivesse eu lá estudado uns anos depois, quando a ignomínia as mutilou e transformou em dois tocos disformes, e não seria o mesmo Pedro...

P.S. – Quer-me parecer que algumas escolas, ao invés de estarem tão preocupadas com processos burocráticos ilusórios, deveriam preocupar-se mais com a educação dos que aí estudam...

Se 2009 operou em mim alguma transformação, foi a de diminuir a pouca vontade que sempre tive para pactuar com certas hipocrisias. A passagem do tempo acentua-nos o mau génio!

Domingo, 7 de Dezembro de 2008

Texto 9

Silves, 3 de Dezembro de 2008 - Fotografia de Margarida Ramos



Colegas e amigos:


Mote:
E eis a resposta da ministra da Educação da República Portuguesa quando questionada sobre momentos felizes nos 3 anos à frente do respectivo ministério:


"[Maria de Lurdes Rodrigues] garante, contudo, que também tem tido bons momentos. "Muitos." Pede-se-lhe que partilhe um. "Uma carta que recebi de um menino que recebeu um computador para ter em casa, não sei já em que circunstância, e escreveu-me a dizer: 'Quando for grande, vou inscrever-me no PS'. É tocante."

"Público", 28-11-2008


Ponto 1:
A frase anterior demonstra, se necessidade houvesse ainda, o calibre de quem governa a educação neste país. Em 3 anos de governo, a primeira recordação feliz que a nossa ministra cita de memória é o desejo de uma criança se filiar no partido do governo.

Já era suficientemente mau considerar, por ingenuidade, que distribuir portáteis com ligação à internet iria resolver os principais problemas do ensino em Portugal.
Ficámos agora a saber que esta distribuição de computadores de ingenuidade nada tem, mas que obedece a uma estratégia de propaganda.
A mesma estratégia à qual se parece ter convertido a DGRHE que aparenta ter trocado a preparação do próximo concurso de docentes, pelo envio de e-mails de publicitação às ideias do governo no actual conflito com os professores.

Deste modo, temos um organismo do Estado e os seus funcionários, pagos com os impostos de todos nós, ao serviço do governo e do partido que o sustenta. É mais uma prova da insuportável promiscuidade entre o Estado e o governo da nação.
É suposto que os ministros, os secretários de Estado e o restante pessoal de nomeação política, defendam os ideais do partido do governo. Mas não seria de esperar dos serviços do Estado (como os ministérios) e dos funcionário públicos que aí trabalham, uma neutralidade neste tipo de situações?


Ponto 2:
Sei que alguns se podem sentir confusos pela aparente cedência dos sindicatos na passada sexta-feira. A luta não é, nunca foi, entre ministério e sindicatos.
A união dos professores demonstrada nos 120 000 que se manifestaram a 8 de Novembro em Lisboa; nas centenas de escolas que suspenderam o processo de avaliação, nos protestos regionais que juntaram milhares (mesmo à chuva como em Faro) ou na mais expressiva greve de sempre (que nem o próprio ministério se atreveu a diminuir), não desaparece de um momento para o outro.


Sejamos sinceros...Este é o momento de nos concentrarmos no essencial: na correcção dos últimos testes, na avaliação dos nossos alunos, na preparação das reuniões de avaliação. Isso deve merecer o máximo do nosso empenho e dedicação.

Perante uma previsível menor adesão às greves regionais, pelos motivos referidos anteriormente e pelo impacto no orçamento familiar de muitos de nós, os sindicatos tiveram a lucidez de transformar uma possível "meia derrota" num acto de boa vontade para com o ministério.


Dá-nos tempo...Para os nossos alunos, para nós e para reflectirmos nos próximos passos a dar, agora que estamos (finalmente!) conscientes do enorme poder que a nossa união no concede.
E cria uma pressão sobre o ministério da Educação, sobre o qual recai a responsabilidade de explicar como irá implementar um modelo de avaliação no qual a esmagadora maioria dos professores não acredita.


Ponto 3:
Há muito que descobrimos que a melhor forma de bloquear toda esta loucura foi a iniciativa, de milhares de nós, de não entregar os objectivos individuais. Lembram-se? Foi esse acto de coragem cívica que trouxe os sindicatos a reboque...Nada disso se alterou na passada sexta-feira.


Os sindicatos perceberam que dependem de nós e não ao contrário como durante muito tempo se pensou...E o ministério? O ministério age com o desespero e a arrogância dos cercados, dos que estão conscientes da sua derrota. Dos que sabem que estão no poder a prazo...
Os últimos dias foram um desfiar de anúncios que provam bem o desespero que aquela gente vive na 5 de Outubro:

- Primeiro: o ridículo do "simplex" que deixou cair as aulas assistidas para se ter "Bom". Ficou provado o motivo pelo qual os bons professores nunca acreditaram que este sistema visava premiar os melhores. Ficou demonstrado que o governo não se importa que mesmo os maus professores tenham "Bom", ou seja, que o essencial é criar a ideia de que não vale a pena lutar pelo "Muito bom" ou "Excelente" garantindo, desta forma, que poucos serão os que progridem na carreira.
Ficou assim exposto o que os incomoda: a progressão na carreira, ou seja, as despesas com as remunerações da nossa classe! Se um professor medíocre for avaliado com um "Bom", por não ter tido aulas assistidas, isso nada lhes importa. Qualidade no ensino? Não, isso é secundário, sempre foi, mas agora está assumido no "simplex".

- Segundo: a declaração da ministra, esta semana no parlamento, de que para o ano estaria disposta a negociar outro modelo de avaliação, prova o que há muito nós sabemos: que o próprio ministério já não acredita que este modelo seja exequível e que só não o admitem, no presente, para não perder a face perante a opinião pública.

Temos assim que a teimosia e o orgulho político são valores mais importantes, para o ministério da Educação, do que a paz nas escolas ou os efeitos desta luta na imagem da escola pública e na qualidade do ensino.


Ponto 4: O que conseguimos na passada quarta-feira, em Silves e por todo o país, foi notável.
No nosso caso concreto, a forte adesão à greve e a marcha pelas ruas de Silves foram um exemplo de cidadania, o qual culminou num acto único a nível nacional: a aprovação de uma moção, pelo executivo autárquico, de apoio à causa dos professores portugueses.


Estes momentos não se apagam de um dia para o outro, estamos apenas no início de uma luta que só perderemos se não mantivermos a união ente nós.
Sabemos que a razão está do nosso lado, que esta luta não se resume à avaliação ou a uma guerra de personalidades e de nomes.

De nada servirá mudar os ministros e os secretários de Estado, se não houver alterações significativas de políticas na educação: menos burocracia, mais autonomia e responsabilização das escolas, um sistema de avaliação rigoroso que apele à ambição dos professores em melhorar o seu desempenho e que não apele ao "poderzinho" de por e dispor dos colegas. Uma política que não divida artificialmente os docentes em duas classes...Muito menos, quando se sabe dos pressupostos que determinaram a actual divisão. No fundo, uma cultura de rigor, de seriedade e de exigência, que respeite os professores sem que seja necessário tratá-los com condescendência!
E uma utopia, se me é permitido o desejo: uma política educativa que compreenda que estar a favor dos professores, não é estar contra os alunos!


Sabemos, desde o início, que este protesto nunca foi apenas pela questão das "fichinhas" mas sobre toda a hipocrisia subjacente a este processo, ao modo como se procedeu à divisão da classe e à forma como o ministério persiste em políticas de ilusão apenas para "inglês ver".

E sabemos bem que nada podemos alcançar de quem não nos respeita e em nós não confia.

De tudo, temos ouvido: de sermos "chantagistas" por nos manifestarmos no legítimo uso dos nossos direitos constitucionais (ainda por cima a um Sábado, sem prejudicar alunos e pais); de sermos instigadores das manifestações de alunos; de sermos incapazes de interpretar o Estatuto do Aluno; etc.

Mesmo algumas das medidas do "simplex", como a não contabilização do sucesso dos alunos e do abandono escolar no presente ano lectivo, foram propostas com base na aparente incapacidade das escolas (e dos professores) para interpretarem estes parâmetros.

A tudo isto temos resistido sem insultos e com dignidade. Se fôssemos assim tão permeáveis à venda dos nossos princípios, há muito que teríamos cedido.

Sabemos, a cada e-mail da DGRHE, a cada "simplex", a cada declaração da ministra e dos secretários de Estado, a cada reunião intimidatória com os Conselhos Executivos, que a razão está do nosso lado. E isso basta-me para saber que, no fim, os bons triunfarão.

Ainda que com os antecedentes que conhecemos, tenhamos por uma vez confiança nos que nos representam.


Ponto 5: Eu estou nesta luta por convicções, sem qualquer agenda pessoal ou de carácter político.

Nesta "guerra de desgaste" não aceito morrer na praia. E não acredito que haja alguém disposto a ceder agora, depois de tanto caminho percorrido, e a troco de nada.

O que se joga por estes dias, e como já antes escrevi, é o futuro da escola pública em Portugal. Se desistirmos agora, a história não terá contemplações para a nossa falta de coragem.

Confesso que previ uma vitória mais rápida. Fui ingénuo ao pensar que quem dirige o ministério da Educação teria os mesmos princípios que nós e que, perante uma esmagadora maioria de professores que neles não confia e não respeita, prefeririam o caminho digno da demissão.

A Sr.ª ministra sabe que é parte do problema e não parte da solução, sabe que a cada dia que passa aumenta o fosso entre ela e o resto da comunidade educativa e sabe que tudo aquilo que possamos fazer, no futuro, será sempre na base da coacção e nunca da razão.

Não vos minto, não será fácil derrotar quem está no poder apenas pelo poder, apenas por orgulho, apenas para não admitir que errou e que tudo aparenta ser capaz de engolir apenas para se manter no posto.

Mas também, por tudo isto, tenho hoje mais certeza do que no início, de que triunfaremos. Pelo caminho que já percorremos e porque percebemos que a única coisa que nos poderia derrotar seria a nossa falta de união nos momentos cruciais que se aproximam.

Termino com as palavras de um dos maiores vultos da Língua Portuguesa. Um poema que é bem a bandeira da nossa causa:


Quantos seremos?


Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.

Miguel Torga

HAJA CORAGEM! Eu acredito na vitória...Até lá, todos somos poucos e o esforço de cada um de nós é essencial. Concentremo-nos no que nos une, o que por certo é bem maior e significativo do que aquilo que nos separa...



P.S. - Poema retirado do blogue "Caminhando..."

Sábado, 6 de Dezembro de 2008

Professores excelentes

Não conheço o meu colega Paulo Fonseca, de Benavente, mas um professor que coordena este tipo de projectos é um "professor excelente", qualquer que seja o maquiavélico modelo de avaliação que nos queiram impor!

Imagens (IV)

Imagens da manifestação do passado dia 8 de Novembro, em Lisboa. Fotografias de autoria de Juliana Sanches.










Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

Imagens (III)

Greve nacional de professores, Silves (3/12/2008). Fotografias da professora Margarida Ramos (Escola Secundária de Silves) - visualizar o álbum completo.

(clicar nas imagens para as ampliar).



















Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

Greve Nacional de Professores em Silves (II)

A reportagem e as fotografias da nossa jornada de luta no Barlavento online.










(Nota: Todas as imagens são de autoria de Ana Sofia Varela, do Barlavento online).

Greve Nacional de Professores em Silves (I)

A adesão à greve nacional foi bastante significativa nas escolas de Silves, tendo ultrapassado claramente os 90% na EB 2,3 do Agrupamento Vertical de Escolas Dr. Garcia Domingues.

A meio da manhã, os docentes do Agrupamento Vertical de Escolas Dr. Garcia Domingues (EB 2,3 e escolas do 1º Ciclo) e da Escola Secundária de Silves juntaram-se numa marcha que, percorrendo algumas das principais artérias da cidade (ver 1ª imagem), foi aproveitada para entregar, aos diversos transeuntes, um documento com um resumo dos principais motivos por detrás da luta dos professores portugueses.

Nesta marcha estiveram também presentes elementos de outras escolas do concelho, nomeadamente da EB de Armação de Pêra, perfazendo um total de cerca de 80 professores.




A referida marcha culminou na frontaria dos Paços do Concelho, onde uma representação dos professores foi recebida pelo executivo camarário, tendo sido entregue um documento, dirigido à Presidente da Câmara Municipal de Silves e restante vereação, com os motivos da indignação da classe docente.

O dito documento foi bem recebido por todos os elementos do executivo camarário, os quais mostraram compreensão pela causa dos professores portugueses. Dada a aceitação da nobreza dos motivos invocados para as nossas reivindicações, os professores tiveram mesmo direito a ouvir palavras de incentivo para prosseguirmos os nossos objectivos de continuar a dignificar o ensino público.

Por último, o vereador da CDU e nosso colega do Agrupamento Vertical de Escolas Dr. Garcia Domingues, Manuel Ramos, apresentou uma Moção de Apelo ao Entendimento no Ensino Público, a qual foi aprovada com os votos favoráveis de todos os membros do executivo camarário, apenas com a abstenção da vereadora Lisete Romão (Partido Socialista).




O próximo passo desta luta está já definido: a greve regional do próximo dia 12, à qual os professores da cidade de Silves contam aderir novamente em grande força, estando em fase de organização uma manifestação na cidade de Faro, para a qual convidamos todos os colegas das restantes escolas do Algarve.


P.S. - Consultar no Barlavento online todas as informações sobre a greve nacional de professores, ao nível da região do Algarve.


Foto: Barlavento online

Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

Texto 8

Contexto: Desabafo assinado pelo meu colega Manuel Ramos no seu "Blogue do Vereador".


Embora, e aparentemente, fora do habitual âmbito deste blogue, não quero deixar de aqui escrever sobre a actual situação que a Educação vive em Portugal. Porque sou professor, e porque a educação é também assunto local, por sinal dos mais importantes para o concelho de Silves.

Começo por dizer, sem qualquer intenção auto-promocional - mas tão-só para evidenciar quanto o problema da avaliação de desempenho não assusta os professores e é apenas uma das questões a que se opõem os docentes -, que sou professor titular, no topo da carreira (antigo 10º escalão), avaliador e que, ao contrário dos meus colegas, segundo este modelo do ME só serei avaliado pelo órgão de gestão e dessa avaliação não decorre consequência alguma para a minha progressão. Estou, por isso, muito à vontade para vos dizer que, ainda assim, estou totalmente contra o que este modelo propõe e à filosofia nele subjacente. O mesmo posso dizer de outros colegas que, ainda que não tendo atingido a nova idade legal de reforma, entenderam requerê-la com prejuízo do abono total da mesma, em completa desilusão pela escola actual. Só isso, a sangria desatada, e nunca antes vista, de experientes e competentes profissionais nos últimos tempos deveria fazer pensar o governo da República. Mas pouco lhe importa: os números, a redução do deficit (os novos professores são mais baratos que os mais antigos), falam mais alto.

Para além deste injusto modelo de avaliação, virado para a redução dos custos e para a melhoria artificial dos resultados escolares (ao ligar a nota do professor às classificações dos seus alunos e ao abandono escolar, como se isso fosse responsabilidade exclusivamente sua!) conforme ficou evidente nos últimos exames nacionais, os professores contestam a divisão da sua carreira em duas categorias, após um concurso por pontos que só teve em conta os seus últimos sete anos de carreira. Os professores contestam um Estatuto do Aluno que mais uma vez promove o facilitismo e penaliza o trabalho burocrático a favor dos mais displicentes, sem atender ao reforço da degradada autoridade docente; os professores contestam a cada vez maior precariedade imposta pelos concursos, que os coloca a centenas de quilómetros de casa durante anos a fio, sem qualquer compensação; os professores contestam uma inútil prova de ingresso na profissão após uma licenciatura especializada em ensino numa universidade cujo currícula é aprovado pelo governo; os professores contestam a arbitrariedade de durante mais de dois anos terem tido a sua carreira congelada e há muitos anos terem aumentos salariais inferiores à inflação; os professores contestam o facto de um licenciado admitido por uma qualquer Câmara Municipal auferir muito mais do que um professor, também licenciado, em início de carreira; enfim, muitas são as razões do descontentamento dos professores. Mas talvez a maior de todas seja mesmo a arrogância, a desfaçatez com que mentirosamente se intoxica a opinião pública contra a classe, a teimosia por detrás do "quero, posso, e mando" da ministra que tem assento na 5 de Outubro. Isso fez transbordar o copo da indignação docente. Isso pôs por duas vezes mais de 100 000 professores na rua.

Feito este primeiro e incompleto esclarecimento, mais em jeito de desabafo, queria deixar a informação de que os professores voltam à luta no dia 3 de Dezembro, com uma greve nacional que deverá também em Silves ser muito expressiva.
Os professores em greve nesse dia pretendem dirigir-se em marcha entre o Jardim Cancela de Abreu e a Câmara Municipal (passando pela Junta de Freguesia) onde deverão ser recebidos pelo Executivo que estará em reunião e ali apresentar um documento que dê conta ao Poder Local (e por interposta pessoa à comunidade local) das razões do seu descontentamento.
É uma forma de simbolicamente pedirem a compreensão para os motivos da sua indignação pessoal e profissional aos que a sua luta prejudica.

Silves na comunicação social

A marcha de Silves já é notícia no Barlavento online.

Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

Texto 7

Caros colegas e amigos,


No próximo dia 3 vou fazer greve e pela primeira vez! Nunca antes fiz greve, não por questões monetárias mas, porque nunca, até agora, acreditei em formas de luta que prejudicassem terceiros. Porém, dado o estado a que tudo isto chegou, considero bem mais gravoso, para o futuro dos nossos alunos, nada fazer...

E também porque, de forma genuína, acreditei que esta ministra iria combater de frente os males do ensino e a burocracia absurda do ministério.

Por isso, sinto-me particularmente desiludido, desapontado e ultrajado. O ministério da Educação tem hoje 3 formas de resolver os problemas do ensino:

a) Distribuindo portáteis com internet como se este simples facto, por si só, resolvesse todos os principais problemas de aprendizagem dos nossos alunos.

b) Combater o insucesso nas provas nacionais (de Aferição e nos Exames) através de uma diminuição do grau de exigência; ver a propósito o que se passou este ano com a Matemática, tal como denunciado pela Associação Portuguesa de Matemática.

c) Por outro lado, como melhorar os resultados nos exames não é suficiente, criou-se a pressão de fazer depender a avaliação dos professores dos resultados dos seus alunos.


Não vos peço que façam greve. Nunca suportei qualquer espécie de "piquete de greve"!

Cada um é livre de decidir de acordo com a sua consciência. Apenas vos peço que pensem nos vossos alunos e, se for caso disso, nos vossos filhos.

Não permitam que façam ao ensino público aquilo que foi feito ao sistema nacional de saúde.


Caso decidam fazer greve, apelo a que estejam presentes na escola por volta das 8 h 15 min. para que depois possamos estar todos, às 10 horas, no largo da escola secundária.
Daí sairá uma marcha para mostrar aos nossos alunos, aos seus pais e ao poder local, democraticamente eleito, das causas da nossa indignação.


Não posso crer que a força das nossas convicções não seja INFINITAMENTE superior a qualquer incómodo, que possa existir, por desfilarmos diante dos que nos conhecem do dia-a-dia.

Segue, em anexo, o texto a entregar na Câmara Municipal de Silves e um documento a entregar, caso considerem pertinente, aos encarregados de educação. (NOTA: Este documento deverá ser fotocopiado a expensas próprias, por quem o desejar. Como é facilmente compreensível, não seria aceitável utilizar dinheiro da Escola para tal tarefa).

Não sejamos coniventes, nem mesmo por omissão, com a destruição da credibilidade da escola pública em Portugal!

É agora ou nunca! Unidos venceremos...Nesta luta todos são necessários e têm a mesma importância. Todos fazem falta, tu também!


Vemo-nos na quarta-feira.


Pedro Nuno Teixeira Santos
http://desabafosdeumprofessor.blogspot.com/


P.S. - Como sabem, na passada segunda-feira fui a Lisboa na esperança de poder falar no programa "Prós e Contras", da RTP1.
Nada tenho a dizer da produção do programa e, em particular, do jornalista Tiago Contreiras que foi de uma grande simpatia e que, relembrando as regras de funcionamento deste programa, não me garantiu a 100% que pudesse chegar a intervir no mesmo. Não contesto isso e nem me arrependo apesar das duas horas e meia de sono e dos 80 euros de despesas, entre gasolina e portagens.

Mas há pormenores que são "estranhos", como quando a jornalista da RTP, Fátima Campos Ferreira, falou do "clima de terror" que se vive nas escolas; pensei que falasse das pressões para entregar os objectivos individuais, dos e-mails da DGRHE, das reuniões dos CE na presença de secretários de Estado ou nas direcções-regionais de educação.
Não, nada disso! A dita jornalista passou a palavra à nossa colega Armandina Soares que se queixou de ter sido ameaçada, não se sabe bem por quem, por ser "a favor da avaliação".

Infelizmente, não foi dada a oportunidade a ninguém de fazer o contraditório. Talvez se me tivesse sido dada essa oportunidade, eu pudesse ter explicado como, na nossa escola, apesar de não pensarmos todos da mesma forma, ninguém foi ameaçado ou discriminado.

Convém sublinhar que a nossa colega Armandina Soares participou no Fórum "Novas Fronteiras" do Partido Socialista. O que em si, como é óbvio, não é nenhum crime.
Os professores são livres de participar em iniciativas políticas de qualquer partido. Mas, caso esta informação tivesse sido dada, a priori, no referido programa de televisão, talvez lhe pudessem ter sido feitas outras perguntas, não dando lugar a estas suposições. Até porque quem não deve, não teme!

Sábado, 29 de Novembro de 2008

Imagens (II)




Centenas de professores, sob a chuva diluviana de Faro, ontem à noite. Pedia-se dignidade e nada mais. (fotografia - blogue Fénix Vermelha).

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

Texto 6

Contexto: Escrito na "ressaca" do programa "Prós e Contras".



"Aparentemente, o programa "Prós e Contras" do passado dia 24 de Novembro foi apenas mais um programa sobre o actual modelo de avaliação de professores. Puro engano!


Houve, para mim, 2 momentos decisivos:

O início do programa, ou seja, a primeira declaração do Secretário de Estado Adjunto da Educação, Jorge Pedreira, quando este afirmou que "(...) a suspensão não faz sentido, nem é necessária..." ao que acrescentou "(...) tem que haver um modelo de avaliação rigoroso, credível e que permita a diferenciação entre professores...".

Este primeiro momento, para além de hilariante, foi efectivamente decisivo por tudo aquilo que foi dito ao longo do debate e, sobretudo, pelo que foi dito a meio da segunda parte do programa por Maria do Céu Roldão (segundo momento decisivo).
Vejamos então:

Ficou claro, de uma vez por todas, que o problema deste modelo não é a sua "operacionalização", ou seja, as fichas, as tabelas, as grelhas ou as planificações, como se tentou (auto) justificar repetidamente, durante duas horas, a professora Maria do Céu Roldão.

Não se pode ser tão ingénuo ao ponto de se pensar que seriam as famigeradas "fichinhas" a levar 80% da classe docente às ruas de Lisboa e a criar este impasse nas escolas e no país. Os professores não são idiotas!

O problema não está sequer no modelo em si. O problema está na sua origem, ou seja, na divisão artificial entre professores titulares e em professores.

Este processo não se baseou numa selecção que permitisse determinar os mais capazes, entre todos nós, para avaliar os demais. E isto contaminou de desconfiança todo o processo desde o início e demonstrou, sem sombra de qualquer dúvida, o "rigor" que o ministério quis imprimir a este processo desde bem cedo!

Foi isto mesmo que, após minutos e minutos de discurso auto-justificativo e crítico aos professores, acabou por confessar Maria do Céu Roldão, ao afirmar textualmente:"(...) o concurso para titular de que aqui se discutem os detalhes (...) eu também acho, e também o expresso aos membros do governo, que os critérios deste primeiro concurso, centralmente administrativos, num tempo em que os cargos administrativos (...) os lugares de gestão de coordenador, etc.,. tenham sido, porque foram, uma ROTAÇÃO POR LOTARIA e não uma escolha de acordo com a função...".



Resumindo:

- Era necessário avaliar os professores pelos seus pares. Pensou-se num modelo que permitisse pré-seleccionar os mais competentes para essa tarefa? Não, claro que não! Isso levaria tempo e isso não interessa a este governo.

Afinal o que se pretende não é avaliar os professores mas, muito mais importante, passar para a opinião pública a imagem que se "está a avaliar os professores". Parece a mesma coisa, mas apenas à superfície...A sobreposição das aparências ao conteúdo, do marketing ao rigor!

Deste modo, tal como com os exames nacionais e tantas outras políticas educativas, optou-se pelo facilitismo: optou-se por um modelo de concurso para titular, cheio de contradições e injustiças, baseado sobretudo em factores, não de mérito científico/pedagógico, mas na ocupação de cargos administrativos.
E que opinião é que Maria do Céu Roldão, uma das criadoras deste processo de avaliação docente, tem da forma como esses cargos eram ocupados: "rotação por lotaria"!

De facto, se este concurso para titulares permitiu seleccionar os melhores professores deste país foi por mero acaso...ou lotaria!

Mas Maria do Céu Roldão vai mais longe no seu lirismo, ao tentar explicar que o importante era mesmo fazer um primeiro concurso, ou seja, dividir a classe entre avaliadores e em avaliados. E que, consumada esta divisão e iniciado este processo de avaliação, seria possível identificar os melhores que, se supõe, chegariam um dia, eles próprios, a titulares e avaliadores.

Concluindo, e em bom português, o processo de avaliação começou da pior maneira possível, através de uma pré-selecção de professores avaliadores por mera sorte mas, este sistema "perfeito", uma vez em funcionamento seria capaz de se auto-regular-se e promover a excelência e a identificação dos melhores professores.

Para enredo de filme de ficção científica até seria interessante mas, tendo em conta que falamos de políticas educativas que se exigem rigorosas, este processo ultrapassa os limites da falta de dignidade.

É isto, e só isto, esta farsa burlesca e hipócrita, que o senhor Secretário de Estado Adjunto da Educação, Jorge Pedreira, e toda a restante equipa ministerial, quer vender ao país como uma avaliação "rigorosa, credível e que permita a diferenciação entre professores...".


É preciso explicar este problema de base ao país e porque não podemos anuir à coacção e à chantagem para aceitarmos a simplificação de um modelo que não podemos aceitar, não pela burocracia que encerra, mas pela hipocrisia política sobre o qual foi construído. O problema real tem a ver com o facto de todo este processo assentar os alicerces numa farsa: o concurso para professores titulares.

Mas, a propósito deste "simplex" com que o governo esvazia e ridiculariza a avaliação que ele próprio criou, convém reter o ponto cinco, em que se torna voluntária a avaliação da componente científico-pedagógica.
Resumindo: uma pessoa pode ser uma "nódoa" como professor mas, se preencher a papelada toda e se o seu coordenador de departamento prescindir de assistir às aulas, arrisca-se a ser avaliado com...Bom!!!!
Isto é, num golpe de teatro palaciano, o ministério deixa cair a obrigatoriedade daquela que, na minha modesta opinião, era a única coisa que fazia sentido no seu modelo de avaliação, ou seja, a avaliação de um professor em contexto de aula.

Mais uma vez, o ministério sublinha que o importante é passar, para a opinião pública, a mensagem que se está a avaliar os professores e não criar um efectivo processo de avaliação que pudesse ser rigoroso, credível e que permitisse a diferenciação, pela qualidade, entre professores.

Chegados a este ponto, é bem claro que o governo vai estar disposto a tudo apenas "para não perder a face" através de um recuo na praça pública.
Estou convencido que continuarão a tentar "comprar" a nossa dignidade, simplificando ainda mais este modelo até nada dele restar.


Poderá haver ainda algum professor, algum colega nosso, que acredite que será este sistema de avaliação que permitirá premiar os melhores?

Poderá haver ainda algum português que acredite que o governo está de boa-fé neste processo, ou seja, que está genuinamente interessado em melhorar o sistema de ensino e não apenas em montar uma farsa? Não será de perguntar porque é que, se este sistema de avaliação é tão rigoroso, existe a necessidade de tantos reajustamentos e simplificações?

Resta a resposta à colega Inês de Castro que, no mesmo "Prós e Contras", apelou a um recuo dos sindicatos. Eu não sei se os sindicatos irão recuar, nem me interessa.

Interessa-me antes saber que, após o próprio ministério ter confessado a sua farsa em directo, não restarão aos professores dignos, sérios, honestos e corajosos, qualquer dúvida de que não são eles que têm que recuar. Do seu lado está a razão de quem se fartou de "engolir sapos" e quer salvar o que resta por salvar no ensino público português.

Anseia-se agora, de forma patética, que, após mil e uma simplificações, se endireite algo que nasceu torto?! Estaremos dispostos a vender a nossa dignidade a troco de um "simplex"?

Eu não! Em Silves resiste-se cada vez com mais força. A cada reunião com a Direcção-Regional ou com os Secretários de Estado; a cada nova simplificação; a cada novo e-mail da DGRHE, cresce a certeza da nossa razão.

Todo este processo em que se tenta manter vivo algo que há muito é um "cadáver" começa a cheirar mal…Como disse alguém no "Prós e Contras", alguém que não é professor mas sim o representante da confederação de associações de pais, "não se pode suspender algo que está parado"!

Haja coragem..."

Texto 5

Contexto: O que queria, e não pude dizer, no programa televisivo "Prós e Contras".



Colegas e amigos,


Tive o privilégio de ser "convidado", ou melhor, desafiado pelo nosso colega Paulo Guinote para ir, amanhã (hoje), ao programa "Prós e Contras".

Enquanto escrevo estas linhas, desconheço ainda se irei...Podia justificar a minha não ida com um milhão de coisas, todas elas verdadeiras e racionais: 7 horas de aulas às segundas que acabam às 5 e meia da tarde; as 3 horas de viagem de ida e outras 3 de regresso; com as aulas às 8 e 25 de terça-feira; podia-me justificar com um compromisso já assumido para ir, a Loulé, a uma palestra sobre árvores...


Porém, sou um animal emotivo e nunca tomo decisões racionais. Há coisas às quais não se pode dizer "não". Ainda que vá e que fale e que faça a pior das figuras.

Nunca estive na televisão, muito menos em directo, a representar 150 000 para uma nação inteira! Quem me conhece sabe que à eloquência escrita não corresponde um à-vontade a falar. Escondo-me num humor negro que me defende no dia-a-dia, mas que me será de pouca ajuda num estúdio de TV.

Vou com a esperança de não falar, para não me atrapalhar, gaguejar, corar e envergonhar os que se emocionaram com os meus textos...

Escrever um ou dois e-mails não faz de mim melhor professor, ou mais representativo, do que aquilo que sou na realidade. Tenho tanto direito a estar lá como qualquer um dos 149 999 colegas de profissão. Nem mais 1 milímetro...

Mas, para o caso de sempre conseguir ir ao programa e, caso não chegue a falar, há coisas que gostaria de poder dizer...

" - Na minha escola, os professores mais inconformados com a actual situação são os mais competentes, ou seja, os que supostamente teriam algo a ganhar com esta avaliação. Precisamente porque vislumbram nela uma "hipocrisia" que nada mudará nas escolas.
Isto quer dizer muito, quer dizer que as pessoas prescindem do "direito a ser avaliadas" porque não vislumbram vantagens neste processo, para si e para os seus alunos. As pessoas que se revoltam são as que menos teriam a temer com a sua implementação.
Ninguém se assusta com a avaliação, esta ou outra qualquer. As pessoas têm medo de ser infelizes, de continuar infelizes e que isso afecte o seu desempenho profissional.

- Vamos directos à raiz do problema no que concerne ao modelo de avaliação que nos querem impor. O mesmo assenta no princípio que os "professores titulares" avaliarão os demais "professores". Não é a divisão da classe que nos incomoda, mas o processo como a mesma foi consumada.
Vou dizer uma coisa politicamente incorrecta, que não é assumida mas que incomoda muita gente: a selecção dos professores titulares não foi feita com base no mérito profissional de cada um, mas no tempo de serviço e na ocupação de cargos de gestão nas escolas (direcção de turma, coordenação de departamentos, etc.). Se este processo permitiu escolher os "melhores de nós" foi apenas por mero acaso!
Muita gente não se sente vocacionada para avaliar, não se sente com competências e com vontade de o fazer e tudo isto trouxe uma divisão às escolas, um clima de mal-estar, que em nada contribui para resolver os graves problemas do ensino público em Portugal.

- E depois, sejamos honestos, as pessoas já são avaliadas no seu dia-a-dia, pelos alunos, pelos pais, pelos colegas e pelos conselhos executivos. Os conselhos executivos sabem bem os professores que têm nas escolas.
A maioria dos professores são profissionais honrados que tentam fazer o melhor que conseguem, todos os dias sem excepção...Existem uns poucos excepcionais, que se envolvem em projectos diversos e estão permanentemente a apostar em novas formas de dar aulas e na sua própria actualização científica. Outros adorariam fazê-lo e não o fazem, não por não gostarem da sua profissão, mas porque nasceram mulheres e para além da sua profissão na escola, têm outra, ainda mais desgastante, à sua espera em casa.

Sim é certo, existe uma minoria de professores pouco competentes. Como em todas as profissões...Os executivos sabem bem quem são. É por isso que, no início de cada ano, não lhes atribuem determinados cargos, como o de director de turma em que se lida directamente com os pais.
Dirão que isto não é uma verdadeira avaliação, que não é correcta, que se baseia em pressupostos e em aparências e que, sobretudo, não tem consequências na carreira. Pois não, mas não é nossa a culpa...Mas tal não significa que, em face dessa avaliação permanente que sentimos, não nos esforcemos por ser os melhores professores do mundo.

Afinal de contas, desculpem-me a imodéstia, mas ser professor não é uma profissão qualquer! Temos nas nossas mãos, diariamente, o futuro de dezenas de crianças.
Uma criança ou um jovem sobrevive a um mau professor! Todos nós os tivemos, enquanto alunos, e sabemos que assim é...Até porque são uma minoria.
Mas a um bom professor é difícil resistir. Um bom professor pode mudar a nossa forma de ver a vida e o mundo, pode levar-nos a seguir um determinado rumo, uma determinada profissão.

Um professor sente isso todos os dias... Acreditem, não haverá nunca avaliação pior do que o peso dessa responsabilidade nos nossos ombros, a responsabilidade de poder mudar a vida de uma criança para sempre!


- Para quem "está de fora", a questão da "avaliação" e o que lhe está a montante, ou seja, o novo estatuto da carreira docente, são as causas mais visíveis da nossa luta. Mas não se deixem iludir...Para muitos professores, como eu, isso não é sequer o principal.

- O principal é estarmos cansados por anos de burocracia absurda que o ministério nos impõe e à qual não vemos utilidade prática na melhoria do ensino que praticamos. E estamos confusos...Dois exemplos:

1) O "Plano Nacional da Matemática foi uma boa medida. Mas, seriam necessários anos para avaliar das suas reais implicações no combate ao insucesso à disciplina. A meio do processo, o Ministério cansou-se de esperar e decidiu baixar, nitidamente, o nível de exigência nas Provas de Aferição e nos Exames Nacionais.
Desta forma, jamais saberemos sobre o real impacto do dito Plano ou de qualquer outra estratégia aplicada nas nossas aulas. Quando o nível de dificuldade das provas nacionais não é constante ao longo dos anos, que tipo de conclusões se poderá retirar destes processos?

2) No ano passado uma amiga minha, que lecciona Química numa secundária, teve um ano difícil com os pais dos alunos de uma das suas turmas. Os pais acusavam-na de ser "demasiado" exigente. Ela limitou-se a exigir de acordo com os níveis de exigência do exame da disciplina do ano anterior e com o nível esperado destes alunos, futuramente, numa universidade.
No final desse ano lectivo, o nível de exigência do exame foi claramente inferior ao do ano anterior. Para os pais a conclusão foi fácil: tinham razão, a professora era muito exigente.

- A questão é apenas esta: o que espera o ministério de nós, rigor ou facilitismo?

- Há depois ainda coisas aberrantes, como uma nova prova para ingressar na profissão de professor.
Claro que há coisas erradas nos cursos para professores. Mas não se pode escolher o caminho mais fácil. Reformulem esses cursos, aumentem o grau de exigência para entrar nos mesmos e na respectiva exigência.
Mas não se pode passar um atestado de completa incompetência às universidades. Os professores começam a dar aulas, após um ano de estágio onde foram avaliados por orientadores científicos e pedagógicos, na própria escola e na universidade.
Se o governo considera que após 3 ou 4 anos de estudo e um ano de estágio é uma simples prova que permitirá aferir quem, de entre todos esses candidatos, reúne condições para ensinar, a conclusão é fácil de tirar: o ministério da educação não confia nas universidades portuguesas!

A partir deste exemplo poderia ainda retirar outro para a minha prática docente: não vale a pena passar um ano a avaliar, de forma contínua, um aluno. Basta fazê-lo numa simples prova no final de cada ano para ver se é capaz. Acabe-se com a avaliação contínua!

- O ano passado tive uma inspecção na minha escola. Não assistiram a nenhuma aula. Poderia ter sido interessante, poderiam ter dado sugestões para melhorarmos.
Também não se referiram às nossas actividades extra-curriculares. É pena, ficámos sem saber se são, ou não, suficientes.
O que os incomodou foram os papéis...Ou a falta deles. As actas tinham que ser mais detalhadas; os parâmetros de avaliação dos alunos que, em certos casos, já têm dezenas de componentes (alguns das quais de quase impossível medição) deveriam ser ainda mais descritivos.

Parece que avaliação, de alunos e professores, é a causa única do ensino. Parece quase como se a avaliação fosse um fim em si mesma.

- Quanto mais perto as escolas estiverem das comunidades, mais as pessoas sentirão como "sua" a escola e melhor será a "cultura de escola". Não num sentido corporativista, mas no sentido das pessoas se sentirem sintonizadas com a comunidade na qual estão inseridas.


- Ultimamente, tenho-me lembrado de um episódio da saudosa série "Sim, sr. primeiro-ministro". Nesse episódio, sobre os problemas do ensino na Grã-Bretanha, o primeiro-ministro chegava à conclusão que para resolver os ditos problemas, bastaria acabar com o ministério da educação! Claro que o seu manipulador secretário acabou por o convencer do contrário, a bem do "funcionalismo público"...


Creio que o principal problema da ministra é não perceber que a nossa "guerra" não é com ela, mas sim com anos de políticas erradas e "burocratizantes" do ministério da educação...Esta avaliação foi apenas a "gota que fez transbordar o copo".

Por tudo isto não estou optimista. Esta avaliação e esta ministra estão a prazo. Mas o "monstro", o verdadeiro "monstro", vai continuar a debitar decretos-lei atrás de decretos-lei do mais fundo da 5 de Outubro...Tudo o que nos liberte do "polvo asfixiante" da 5 de Outubro, que há muitos anos nos sufoca com burocracias que não entendemos mas que aceitamos ser pestanejar, só poderá ajudar a que sejamos mais felizes...


- Por fim, a Sr.ª ministra...Numa relação, pessoal ou profissional, a confiança é tudo...Não se pode respeitar alguém em quem não se confia!
Os professores já não confiam nesta ministra. Receio que ela nunca tenha confiado em nós...


Sou dos que, genuinamente, acreditou em Maria de Lurdes Rodrigues! Acreditei que uma nova era de rigor tinha chegado ao ministério, que teria suficiente força e clarividência para cortar com a "lógica da 5 de Outubro" e enfrentar de frente os problemas do ensino.

Por tudo isto, a minha desilusão foi ainda maior. Da sua parte, nunca tivemos uma palavra de incentivo. Os bons professores, ou seja, a maioria de nós, nunca encontrou uma palavra de ânimo e de estímulo no seu discurso.

Fomos sempre tratados por igual, como uns preguiçosos incompetentes. Maria de Lurdes Rodrigues não percebeu, continua sem perceber, que estar do lado dos professores não é estar contra os alunos, pois o seu sucesso é a nossa única razão de existir.

Elegeu-nos como inimigo, sem perceber que sem ter do seu lado a maioria dos professores, os profissionais dignos que todos os dias se esforçam em centenas de escolas, nenhuma reforma poderia ter sucesso...

Não compreendeu o mais básico e elementar: que os seus principais aliados deveriam ser todos os profissionais dignos que, num dia já distante, nela vislumbraram um réstia de esperança para mudar o estado das coisas.


Foi por não ter compreendido isto que Maria de Lurdes Rodrigues perdeu!

Ela, de facto, já não é a nossa ministra da educação. Pode permanecer no cargo por mais 4 anos e pode mesmo conseguir que as pessoas façam o que ela quer por medo de represálias.


Mas pela razão jamais conseguirá algo de nós. Como aquelas relações amorosas que se arrastam durante anos, em que as pessoas não se suportam, em que as pessoas nada têm em comum, em que as pessoas são infelizes...Por inércia, por medo, por mil e uma razões, estas relações podem durar anos. Mas não deixam de ser aquilo que são: relações sem futuro!

Assim é a nossa relação com a Sr.ª ministra. É altura de alguém dar um passo...

É pena pois, a sua saída, não é uma vitória de ninguém. Não enquanto o "monstro" continuar vivo na 5 de Outubro..."

Texto 4

Quem me conhece está habituado a ver-me defender as árvores. Acho, genuinamente, que ainda não tentaram cortar os choupos da minha Escola, aquelas árvores que libertam aquele algodão implicativo na Primavera, com medo da minha reacção...

Têm razão! A verdade é que me acorrentaria às mesmas...As árvores merecem defesa porque são seres impotentes perante a ignomínia humana. Por estes dias, os professores parecem-me seres abandonados à sua sorte, como uma árvore numa rua à espera de ser podada...

Acresce que eu não seria a pessoa que sou, incluindo o muito que amo as árvores, sem os professores que tive enquanto aluno. E, de entre todos eles, um em especial... O Professor, assim mesmo com "pê" maiúsculo, Jorge Paiva!

Todos os dias os professores salvam vidas...Penso na minha colega a quem uma aluna, com graves problemas emocionais por ter perdido um familiar, agradeceu por, literalmente, a ter mantido agarrada à vida.

Todos os dias há pequenas histórias como estas que morrem, onde têm que morrer, no anonimato.

Afinal de contas, os professores não são super-heróis. Há bons e maus profissionais como em todas as classes. Mas deixem-me desabafar que, apesar de todos os desânimos e frustrações, a maioria gosta do que faz e gosta mais de estar dentro de uma sala de aulas do que estar na sala de professores.

Resta então conhecer as causas da nossa revolta...

Com certeza que há coisas erradas neste modelo de avaliação dos professores que nos querem impor.

Como se pode querer rigor científico e pedagógico, quando pessoas de uma determinada área científica têm que avaliar pessoas de áreas científicas distintas (e, muitas vezes, com mais qualificações académicas)?

Como se pode acreditar num sistema que afecta a avaliação dos professores à taxa de abandono escolar, como se esta dependesse do “professor fazer o pino na sala de aula” e não de complexos factores económicos e sociais que escapam ao seu controlo?

Como se pode acreditar num sistema de avaliação que relaciona, de forma directa, a qualidade de um professor com os resultados dos alunos? Será um professor de Matemática duma escola de Lisboa, onde boa parte dos seus alunos tem explicações, melhor do que um colega do Interior rural do país, onde os alunos não dispõem das mesmas condições facilitadoras do sucesso?

Evidentemente que não estou a defender a “teoria dos professores coitadinhos”, teoria que não suporto, pois nem sempre os alunos que possuem melhores condições à partida são aqueles que alcançam melhores resultados.

E porquê?! Precisamente porque, por melhor que o professor seja, há certos factores humanos imprevisíveis que ele não consegue controlar. Explico de outra forma: um médico pode prescrever a medicação correcta a um paciente mas, de seguida, não o irá acompanhar diariamente para verificar se ele toma os medicamentos de forma correcta.
Logo, se o doente não tomar os medicamentos e não melhorar, o médico não pode, obviamente, ser responsabilizado. Isto deveria ser fácil de entender, mas pelos vistos não é…

Logo, um professor deve ser avaliado, não pelo facto de um seu determinado aluno ter tido negativa, mas por todas as estratégias que utilizou para evitar esse desfecho.

E, sejamos brutalmente sinceros e honestos, não é assistindo a 3 aulas de 45 minutos, num ano lectivo, que se retiram conclusões sobre as qualidades e defeitos de um professor.

Dito isto, esta avaliação é apenas mais um instrumento de uma “política de cosmética”, uma encenação, uma farsa burlesca montada apenas para manobrar a opinião pública, tentando passar a ideia de que o “governo se preocupa com a qualidade do ensino”.

Por amor de Deus, poupem-me à hipocrisia! Se querem melhorar a qualidade dos meus métodos de ensino, mandem à minha escola alguém de reconhecida competência científica e pedagógica que me assista a várias aulas; e que depois me diga tudo aquilo em que eu posso melhorar para ser melhor professor e ajudar os meus alunos.
Mas não me enviem mais das inspecções, como a que tivemos o ano passado na minha escola, em que a única coisa errada que detectaram é que “faltam muitos papéis”.

Ah, os papéis! Tudo no ensino em Portugal se parece resolver com mais um papel…Uma ficha, uma grelha, uma planificação, um plano, etc. Servem de alguma coisa?! Não importa! O que importa é que estejam nos dossiês. Para quê? Para nos protegermos…Para nos protegermos dos pais, dos recursos, da inspecção, …

Os professores estão cansados desta “política de medo” e querem recuperar um pouco da sua auto-estima e do amor pelo simples acto de ensinar.

E não toleram que se queira aplicar à avaliação de professores, a mesma política que o ministério tem aplicado para resolver os muitos problemas do ensino em Portugal: facilitismo!

O ministério insiste em mascarar as deficiências do nosso sistema de ensino baixando, de forma evidente e cientificamente inquestionável, o nível de exigência dos exames nacionais, de forma a conseguir resultados que impressionem a opinião pública. Tudo em nome da tal cosmética...

Evidentemente que o falhanço e o erro do ministério foi pensar que os professores iriam tolerar e engolir este mesmo princípio, aplicado à avaliação do seu desempenho; o pensamento deles foi o de sempre: “os professores preenchem a grelha, não resmungam pois estão habituados e porque vão vender a sua honra profissional a troco de um Bom…”

Pois bem, enganaram-se! Até porque a avaliação é apenas a gota que fez transbordar o copo.

Por isso, por mais que o ministério nos queira “corromper”, comprando a nossa rendição a troco da simplificação do sistema de avaliação, os professores não irão ceder. Porque o que está em causa são anos e anos de “políticas de facilitismo” e de “burocratizar para nada resolver”.

É essencial que a sociedade portuguesa compreenda que se está a viver um momento histórico único, o momento em que se decide sobre a credibilidade do ensino público português.

Não é apenas a ministra e a sua equipa que estão em causa, nem sequer a famigerada “avaliação docente”, mas sim anos e anos de políticas que estão a levar ao fundo o nosso ensino e, com ele, o próprio futuro da nação.

Se desistirmos, a história não terá contemplações para nós, pois teremos desperdiçado a oportunidade de mudar o rumo dos acontecimentos e permitir que o ensino público tenha futuro em Portugal.

O capitão Salgueiro Maia, a propósito da situação que se vivia em Portugal antes do 25 de Abril, terá dito um dia: “Há o estado da democracia, há o estado da ditadura e há o estado a que tudo isto chegou!”

Assim está o estado da educação neste momento. É do futuro dos nossos filhos e do nosso país que se trata e de não de uma simples embirração com a ministra do sector ou um prurido a qualquer forma de avaliação.


No geral, não tenho razões para acreditar que haja mais corrupção, incompetência ou mediocridade entre os professores, do que na restante sociedade portuguesa. Bem pelo contrário!

Dêem-nos paz para trabalhar e um pouco de respeito, se faz favor.

Obrigado.


P.S. - Ao que parece, ontem, dois secretários de Estado terão insinuado ser os professores os instigadores das lamentáveis manifestações de alguns alunos, com recurso ao arremesso de ovos.
Sei bem que a maioria dos professores, pessoas com um mínimo de educação e sem qualquer vocação para bandidos, se limita a "instigar" os seus alunos a estudar e a que compreendam que para ter sucesso na vida é necessário muito esforço e dedicação.

Alguns, mais ousados, "instigam" os seus alunos a pensar pela sua própria cabeça e a tentar mudar o mundo. No final de uma determinada aula de Formação Cívica, como escrevi na altura, disse a uma aluna que "uma única pessoa pode mudar o mundo".

Espero não lhe ter mentido. E, se o fiz, foi sem intenção e peço desculpa por acreditar em utopias...

Quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

Coisas que gosto na minha escola (I)


Privilégios...

Jacarandá em flor (Jacaranda mimosifolia D. Don)

(...) a que raramente damos valor: poder chegar à janela do nosso trabalho (neste caso, a minha sala de professores) e ver árvores...Árvores por inteiro!


Esta escola (EB 2,3 Dr. Garcia Domingues - Silves) é dos poucos exemplos que conheço sem casos de "podas correctivas". As pessoas tendem a esquecer que, sobretudo para as crianças, uma imagem vale mesmo mais que mil palavras.
Por este motivo, da nada adianta estarmos com comemorações do Dia da Árvore se, no dia-a-dia, permitirmos que as árvores sejam mutiladas.


Ao contrário do que se possa pensar, as crianças são muito sensíveis a estas contradições e hipocrisias; negá-lo é não as compreender.

No fundo, estou-me a repetir relativamente ao que já aqui tinha escrito quanto ao papel das escolas na educação ambiental e a muitos equívocos associados às comemorações do Dia da Árvore.

Palmeiras-das-canárias, grevíleas e pimenteiras-bastardas.

P.S. - Ainda sobre esta temática aconselho a consulta deste texto no blogue Valkirio.

Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

Texto 3



Este texto pretendeu ser um incentivo à coragem, independentemente da nossa convicção face a todo este processo.

Sem perceber muito bem como, ajudado pela divulgação nos blogues dos professores Paulo Guinote e Paulo Carvalho, este texto acabou por suscitar comentários que muito me emocionaram.




Colegas,

Suponho que todos se sintam sensibilizados por sentirem que, no passado Sábado, fizeram parte de "algo maior", que fizeram parte da história...

Pois na história, por maior e mais significativa que tenha sido a manifestação, é onde todos e cada um dos 120 000 irá ficar se, chegados às escolas, nada fizerem para mudar as coisas.

Sei que muitos se sentiram desiludidos com as consequências práticas da primeira manifestação e que muitos temem a repetição do mesmo com esta segunda manifestação. Alguns sentem-se desiludidos, ou mesmo ultrajados, com as declarações da Sr.ª ministra da Educação na televisão...
Seremos assim tão ingénuos que estávamos à espera que ela viesse às televisões pedir desculpa, dizer que se tinha enganado e que se iria empenhar, connosco, no combate aos verdadeiros males do nosso ensino?! Não me façam rir.

Porque não há-de a ministra se sentir segura, se ela sabe que 90% dos professores que aos Sábados vêm gritar para as ruas chegam às escolas, na segunda-feira seguinte, e continuam a colaborar na política das aparências?

Ela conta com o nosso medo, conta com a nossa inércia, conta com o nosso "seguidismo"...Não lhe interessa resolver nada do que está mal, interessa-lhe apenas a nossa colaboração. E ela sabe que a está a ter em centenas de escolas, as mesmas de onde vieram muitos dos 120 000. A esse medo chama-se CONIVÊNCIA!

Sejamos honestos! Em causa não está a avaliação, mas TUDO o resto. Toda a política de aparências que está a conduzir o sistema de ensino público português para o mesmo caminho que o nosso famigerado sistema nacional de saúde.

Quem, de entre nós, tendo um pouco de dinheiro, não prefere recorrer a uma clínica privada do que perder horas num centro de saúde ou num hospital público? Pois o mesmo irá acontecer ao sistema de ensino público português, caso não nos revoltemos contra esta política que, perante as dificuldades, cede.

No futuro, e o futuro é daqui a dois ou três anos, no sistema de ensino público ficarão apenas os que forem incapazes de fugir para o privado: professores e alunos.

Os meninos estão a ter maus resultados a Matemática? Não faz mal, baixa-se o nível de exigência dos exames. Os meninos ficam retidos no final do ano? Não faz mal, inventam-se dezenas de "planos" e de "justificações" e o pessoal, só para não ter que preencher a papelada, continua a "engolir sapos" e a passar os meninos todos no final de cada ano.

É necessário passar a imagem, para a opinião pública, que o governo está muito preocupado com os problemas do ensino? Inventa-se uma "avaliação burocrática de docentes" e a malta colabora, com medo, e vamos para casa todos contentes com o "Bom"...


O sistema público de ensino está a ruir a cada ano e em vez de enfrentarmos os problemas de frente e assumir o que está mal, incluindo o que está errado dentro da classe docente, continuamos a colaborar com o "sistema"...Ou seja, o "Titanic" afunda-se, mas nós continuamos a dançar ao som da orquestra!


Pois bem, se houver alguém que acredite que este sistema de avaliação vai melhorar o nosso sistema de ensino, que entregue os objectivos pessoais.

Se houver alguém que acredita que os professores que se esforçam, que sempre se esforçaram, vão ser "premiados", que entregue os objectivos pessoais.

Se alguém acredita que os nossos colegas que sempre fizeram do ensino a sua "segunda profissão" e se gabam de usar indiscriminadamente os 102 irão ser penalizados, que entregue os objectivos pessoais.

Se alguém acredita que este processo nos irá ajudar a melhorar os nossos métodos de ensino e a ser melhores professores, que entregue os objectivos pessoais.

Se alguém acredita que este processo irá permitir detectar os nossos erros e corrigi-los, beneficiando indirectamente os nossos alunos, que entregue os objectivos pessoais.


Mas NÃO ENTREGUEM OS OBJECTIVOS POR MEDO! Não cedam à chantagem do medo e às ameaças da ministra. Todos temos muito a perder, mas há coisas que não têm preço...Uma delas é a nossa dignidade profissional.

Nós somos professores e, na nossa profissão, todos os dias somos confrontados com ameaças directas à nossa autoridade. Quando não temos mais argumentos para convencer os nossos alunos pela razão, o que é que fazemos? Ameaçamos! É a última arma que resta, quando faltam mais argumentos...Sabemos bem como é.

Pois bem, temos uma ministra que, há muito, desistiu de nos convencer pela razão, pois nós bem sabemos da hipocrisia desta pseudo-avaliação. Que lhe resta? A ameaça...Como não pode mandar os professores para a "rua" com uma falta disciplinar, ameaça-nos com a não progressão na carreira. E nós? Nós, pelos vistos, cedemos com um sorriso nos lábios.


Seremos assim tão ingénuos que pensamos que, se alinharmos no "esquema" e entregarmos os objectivos, nada nos irá acontecer?

Seremos tão ingénuos ao ponto de pensar que, se alinharmos com o "sistema", o nosso emprego estará assegurado para sempre?

Será que as pessoas não compreenderam que os tempos mudaram e que já não há certezas no que toca a um emprego para toda a vida, nem mesmo para quem trabalha para o Estado?

ACORDEM e olhem à vossa volta...Estamos a entrar numa das piores crises financeiras que o mundo ocidental já conheceu... Alguém acredita que o seu emprego estará seguro indefinidamente só por não contrariar o "chefe"?! Os tempos mudaram e não voltam atrás, nem mesmo para quem é funcionário público.




A escola de Silves está cheia de pessoas normais, não de super-heróis. As pessoas que estão a boicotar a avaliação na minha escola são pessoas honestas e cumpridoras da lei. Pagam impostos e não têm cadastro criminal. Não são loucas, nem irresponsáveis e, por isso, também têm medo.

Estão habituadas a ensinar aos seus alunos e filhos a cumprir as leis. Mas sabem que antes de qualquer lei, está a lealdade e a rectidão perante as nossas mais profundas convicções.

Os professores de Silves também têm medo das repercussões que este acto de resistência pode ter nas suas carreiras, sobretudo os corajosos avaliadores que arriscam, talvez, um processo disciplinar. De onde lhes vem a coragem? De saber que pior que ter medo de não cumprir esta avaliação, é o medo de olharmos para o espelho e termos vergonha de não termos defendido a nossa dignidade profissional e os nossos alunos.

É disso que se trata, de defender a dignidade do nosso sistema de ensino. É daí que nos vem a força, das nossas convicções...Como poderíamos olhar de frente, olhos nos olhos, os nossos alunos se cedêssemos na luta pelos nossos ideais?

A ministra ameaça-nos como "meninos mal comportados" e nós claudicamos? Em Silves, não!


Não sigam o exemplo dos professores do Agrupamento Vertical de Escolas Dr. Garcia Domingues de Silves, sigam a vossa consciência. E se, perante ela, se sentirem bem em entregar os objectivos pessoais, entreguem-nos.

Nós, perante o medo, continuamos a RESISTIR. E desde que o começámos a fazer que dormimos melhor e que temos um outro sorriso...Estamos bem com a nossa consciência e isso não tem preço.

Desde que resisto, que sou MAIS FELIZ. Os meus alunos agradecem...



Pedro Nuno Teixeira Santos, BI 10081573, professor QZP do grupo 230 no Agrupamento Vertical de Escolas Dr. Garcia Domingues (Silves)

(NOTA: se alguém me quiser instaurar um processo disciplinar na sequência deste texto, agradeço o envio de um e-mail e eu envio na resposta, e com agrado, o resto dos meus dados pessoais)

Vídeo (I)

Vídeo da manifestação de professores, do dia 8 de Novembro, em Lisboa. Autoria do meu colega, Manuel Ramos, do Agrupamento Vertical de Escolas Dr. Garcia Domingues (Silves).


Imagens (I)

Fotografias da manifestação de professores, do dia 8 de Novembro, em Lisboa. Cento e vinte mil pessoas não podem estar, simultaneamente, todas erradas!










Fotografias de autoria da professora Paula Torres da Escola Secundária de Silves.


Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

Texto 2

Contexto: Este texto foi escrito a pensar nos meus colegas de escola e Agrupamento em vésperas da reunião em que decidimos solicitar, ao Conselho Pedagógico e Conselho Executivo, a suspensão da aplicação do actual modelo de avaliação docente.
Foi um apelo a que assumíssemos publicamente todas aquelas "queixas" do nosso dia-a-dia e que quebrássemos com a lógica de fazer coisas nas quais não acreditamos. Coisas que nos retiram tempo ao essencial: como ajudar os nossos alunos a aprender.
O resultado foi uma adesão a essa ideia radical: os professores podem fazer história e recolocar a atenção no essencial, ou seja, nos nossos alunos.


«Primeiro, eles vieram buscar os comunistas.
Não disse nada, pois não era comunista;
Depois, vieram buscar os judeus.
Nada disse, pois não era judeu;
Em seguida, foi a vez dos operários.
Continuei em silêncio, pois não era sindicalizado;
Mais tarde, levaram os católicos.
Nem uma palavra pronunciei, pois não sou católico.
Agora, eles vieram-me buscar a mim,
e quando isso aconteceu, não havia mais ninguém para protestar»
.

Bertold Brecht



Colegas e amigos,

Há momentos na história de um país em que é criminoso ficar calado. Em relação ao futuro da educação pública em Portugal, vivemos um desses raros momentos que a história nos concede.

Comecei a dar aulas há 10 anos. Ao longo destes 10 anos, senti sempre saudades da escola durante o mês de Agosto. Este ano, pela primeira vez, não!

De há 10 anos a esta parte, que assisto à degradação do ensino, à institucionalização da mediocridade. Para tudo, a resposta é só uma, ano após ano: mais e mais papel! Mais do que a degradação da nossa profissão, assusta-me assistir impávido e sereno a como nos conformamos, ano após ano, em baixar os níveis de exigência a um mínimo indecente.

.
E, para tudo isto, a solução é sempre mais uma "tabela", uma "grelha", uma "planificação", uma "justificação"...Não interessa se a planificação é para cumprir ou se é útil, interessa que fique arquivada. Não interessa se a "justificação" é útil e necessária, o que importa é que ela exista para nos "protegermos"...Dos pais e dos inspectores, esses papões!

Não concordamos, mas preenchemos na mesma. Não concordamos, mas há muito que interiorizámos a cultura do medo e de não questionar.
Aumenta a indisciplina? Não faz mal, faz-se mais um papel. Os alunos não aprendem? Não faz mal, faz-se mais um papel. É necessário avaliar os senhores professores? Não faz mal, faz-se mais um papel.

Claro que algum tipo de avaliação dos professores é necessário e urgente! Sobretudo se tiver como objectivo melhorar a qualidade do ensino.
Não estamos todos cansados de quem, entre nós, é indigno de ostentar o nome de "professor"? E será que esta avaliação vai permitir corrigir essas situações? Será que esta avaliação contribuirá para melhorar aquilo que os nossos alunos efectivamente aprendem?

Ela não se destina a ajudar os professores a melhorar as suas prestações e auxiliar, desse modo, os nossos alunos. Não se destina a "punir" os medíocres ou a premiar a "excelência".
O que o ministério pretende é que entremos na perigosa jogada da hipocrisia. Para eles interessa apenas passar a mensagem ao país: "Estamos a avaliar os professores, estamos a aumentar o grau de exigência e de rigor do ensino".

E nós, que sabemos ser falso, pactuamos! Vamos a manifestações ao Sábado gritar "palavras de ordem" e na Segunda preenchemos as grelhas inúteis que nos impingem?!

Ou seja, no fundo não concordamos com este modelo de avaliação para professores. No entanto, parecemos estar dispostos a pactuar com ela quando nos deixamos arrastar para uma lógica, do género: "Eu não sou a favor, nem concordo com esta avaliação, mas deixa isto correr que não vai dar em nada. Vamos levar isto sem fazer muitas ondas, fazemos todos os objectivos mínimos de modo a termos todos Bom e, pronto, está o assunto arrumado"!

E quando quisermos ensinar aos nosso filhos e alunos a importância de nunca sermos hipócritas, o que faremos?! Olhamos para o chão e coramos de vergonha?


Das duas uma: ou temos a coragem de assumir que não concordamos com esta avaliação e assumimos a recusa em cumpri-la (com todas as implicações legais); ou temos a coragem de assumir que concordamos com ela e cumprimos tudo a 100%, com todas as implicações deste acto.

Não me obriguem a aceitar situações intermédias, por medo ou cobardia. Com coragem a favor ou com coragem contra!


Exliquem-me: em que é que esta avaliação vai contribuir para premiar a excelência dos professores? Em nada! Em que é que esta avaliação vai contribuir para melhorar a qualidade do ensino? Em nada!

Vamos pactuar hipocritamente com algo em que não acreditamos? E porquê? Por medo?!

Eu também tenho medo...Sobretudo de um dia olhar para o espelho e perceber que traí os ideais a que me comprometi quando abracei esta profissão!

Poderei eu exigir aos meus alunos que sejam honestos e rigorosos e, ao mesmo tempo, pactuar com uma avaliação que acho nefasta para a minha profissão? Expliquem-me, que eu não percebo!


Claro que eu sei que há coisas que estão mal no ensino por culpa nossa. Sou capaz de enumerar algumas. Infelizmente, nenhuma delas será resolvida com este processo que nos querem impor...

À ministra não interessa promover a excelência, porque esta é sempre perigosa para o poder. Porque pensa, porque não obedece cegamente, porque questiona, porque não se dobra e porque, quando é chegada a hora, sabe sempre dizer "não" e de forma digna.

À ministra interessa que nos rendamos à cultura "de não criar ondas", à cultura do medo, à cultura "da tabelazinha", à cultura das aparências, no fundo, à cultura do "Bom"!

Não contem comigo para isso! Se tenho medo? Claro que sim, só um louco não teria...
Também me preocupa o futuro, as contas por pagar e a minha carreira. Mas interessa-me mais o futuro dos meus alunos, a minha dignidade como profissional e ser humano e a minha consciência.

Não peço que pensem como eu e que me sigam pelas minhas ideias. Sigam a vossa consciência, que eu sigo a minha...

Mas se, tal como eu, sentirem que existe um limite para o tamanho dos "sapos" que conseguem engolir, juntem-se a mim na TERÇA-FEIRA, DIA 28, PELAS 18 HORAS NO AUDITÓRIO DA EB 2,3 DO AGRUPAMENTO VERTICAL DE ESCOLAS DR. GARCIA DOMINGUES e ajudem a passar a mensagem.


Porque "há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não".



Obrigado.

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

Texto 1

Contexto: Começo com aquele que considero ser o mais genuíno e emotivo relato do que é ser professor. Foi escrito pelo professor Manuel Anastácio no seu blogue "Da condição humana".




Professores V

1. Antes de mais, peço desculpa à Gláucia. O meu comentário ao seu belíssimo livro "Bichos de Conchas" será em breve tratado por mim. Agora não estaria em condições de escrever algo que seja minimamente digno da obra.

2. Já aqui comecei uma série de textos sobre os professores que me marcaram. Hoje, decidi inserir na série alguns comentários sobre um professor, que sou eu, e sobre todos os professores que agora, em Portugal, são quase unanimemente enxovalhados. E incluo no enxovalho algumas "instrumentalizações" por parte de alguns partidos políticos que só estão contra esta Ministra e um ainda pior Primeiro Ministro por razões eleitoralistas. E note-se que o Sócrates, ao dizer que não verga porque não se dirige por motivos eleitoralistas está, de facto, a fazê-lo. Ele sabe bem (e António Costa ou não sabe ou é lerdo de todo ou está a dizer que o que está perdido, perdido está, e para isso não são necessários comentadores políticos) que vergar no assunto far-lhe-ia perder mais votos que mostrar alguma flexibilidade. E, por incrível que pareça, isto tem, intrinsecamente, muito a ver com a avaliação dos professores. Até porque Sócrates, como qualquer político hábil (e Sócrates é um político hábil - caso contrário, como é que alguém sensaborão como ele continua a ser considerado pela maioria dos portugueses como "o melhor que poderíamos ter"?) sabe que mais vale perder 140 mil votos de professores que 4 milhões de votos (mais coisa menos coisa) de todos aqueles que o elogiam. Um professor também é avaliado pelos alunos e pelos pais. E o que se aplica ao povo que vota também se aplica a estes, no contexto da escola.

3. Ontem cheguei a casa completamente desanimado e a caminho da depressão. Não por causa da Avaliação de Desempenho e afins (f***** sei eu que estou, dando por onde der, por isso, já estou resignado). Não porque me considere mau professor ou "joio" que vá ser espadeirado por este ou outro modelo de avaliação. A minha profissão será sempre 95% de desilusão e frustração e apenas 5% de realização pessoal. Mas, simplesmente, porque uma aula me correu mal. Muito mal. Pessimamente. Se o meu avaliador assistisse a esta aula, será que teria o discernimento necessário para compreender que até os "Excelentes" podem ter aulas como esta? Provavelmente teria, mas, com as quotas a apertar, eu seria relegado imediatamente para os "Bons" (porque "regular", meus amigos, é coisa que não sou).

4. O Alberto João Jardim decidiu classificar todos os professores como "Bons" e foi um Deus-me-acuda entre os defensores da Ministra... Estranho. Esses defensores da Sinistra saberão que a nota de "Bom" não é sujeita a quota???? Nada impede os avaliadores de darem "Bom" a todos os professores da escola, dando os poucos "Muito Bons" e "Excelentes" àqueles que aparentam estar na excelência. A medida do Alberto João é, em termos absolutos, lesiva para os professores da Madeira, já que todos são nivelados por baixo. Mas não sei de notícia de professores excelentes que tenham reclamado. Por uma razão (isto sou eu a pensar): por solidariedade para com os colegas que podem não ser excelentes como eles, mas que, provavelmente, são melhores professores que eles. E se há coisa que vejo entre todos os meus colegas é esta solidariedade e esta compreensão ecológica do ecossistema educativo.

5. Enviaram-me, há dias, um mail daqueles meio melosos com sabor à Paulo Coelho, mas que me serviu de motivo de reflexão. Conta a história de uma velha chinesa que ia à fonte buscar água com um cântaro intacto equilibrado numa haste com outro cântaro rachado. O cântaro intacto chega a casa sempre cheio. O cântaro rachado, sempre meio, ou menos. O cântaro rachado lamenta-se. A velha acalma-o e diz: "Reparaste que lindas flores há no teu lado do caminho, somente no teu lado do caminho ? Eu sempre soube do teu defeito e portanto plantei sementes de flores na beira da estrada do teu lado. E todos os dias,
enquanto voltávamos do rio, tu regava-las. Foi assim que durante dois anos pude apanhar belas flores para enfeitar a mesa e alegrar o meu jantar. Se tu não fosses como és, eu
não teria tido aquelas maravilhas na minha casa!". Sorri, e pensei no que a Ministra, lacaios socialistóides e outros bem pensantes poderiam aprender com esta velha. Mas não aprenderão. Estamos numa era onde as metáforas à Paulo Coelho só servem para vender Best-sellers, não para se aplicar à realidade, que é dura e não se compadece de vasos rachados por causa de insignificâncias como flores. Vou dizer algo muito à direita; algo que o próprio Paulo Portas ou o tipo do PNR-ou-raio-que-o-parta poderia perfeitamente dizer: vivemos num país onde delinquentes e parasitas são gratificados com o Rendimento Mínimo Garantido, mas onde trabalhadores sérios, apenas por meia rachadura, poderão ver a sua vida destruída. Eu sei. É feio o que eu disse. Podem riscar, se quiserem. Eu podia fazer delete. Mas não faço.

6. Tive muitos professores que, sob um modelo de avaliação como o que vamos ter (a "simplificação" prometida pelo Sócrates não augura nada de bom) seriam considerados vasos rachados. Graças a eles, contudo, tenho muitas flores que, por vezes, só anos mais tarde vi a florescer. Professores que, quase de certeza, não faziam planificações de aulas formalmente e por escrito. Professores que davam imensas negativas. Professores que eram ou demasiado exigentes ou demasiado permissivos. Professores que não cumpririam metade dos níveis de excelência burocráticos e estatísticos definidos nas fichas de avaliação deste modelo. Professores que serão, para mim, os melhores professores que tive. Enquanto que tive professores muito organizadinhos, e que facilmente seriam classificados como excelentes por este método de avaliação e que eu tenho como sendo, não os piores professores que já tive, mas, simplesmente, as pessoas mais asquerosas que alguma vez me passaram à frente. Exemplos concretos (com nomes e tudo, seja o que Deus quiser) à frente.

7. Um dos meus mais queridos professores de sempre, farmacêutico na minha terra natal, o professor Baptista Rei, sempre foi o contrário de quase tudo o que é considerado excelente nas malfadadas grelhas de avaliação (ver ponto algures mais adiante). Um dia, estando eu a dar aulas nessa mesma escola, encontrei uma mesa vandalizada que me fez vir lágrimas aos olhos. No tampo liso estavam gravadas as iniciais M R e B R. M de Manuel, R de Rui e BR de Baptista Rei. Feitas com pólvora. Por mim, pelo meu querido colega Rui Navalho e pelo professor, depois de termos misturado salitre, flor de enxofre e carvão, com a paciência de alquimistas. Não sei o que pensaria a Ministra e os seus lacaios de tais experiências para-educativas não ortodoxas. Aquele pequeno vandalismo controlado foi uma das experiências que mais contribuiu para a minha felicidade como pessoa (e eu creio que a escola serve para nos tornar mais felizes, a nós, alunos). Provavelmente, não compreenderão. Provavelmente, chamarão ao incidente irresponsabilidade. Por mim, se fosse eu, hoje, a avaliar este meu professor, dar-lhe-ia a nota "Excelente". E as grelhas de avaliação que fossem dar uma volta ao bilhar grande.

8. Uma das professoras mais repugnantes que tive, de nome Filomena Baião (espero que ela um dia digite o seu nome no Google e encontre o recado), era exactamente o oposto. Metódica. Organizada. E permitiu, impávida, que eu fosse humilhado por um queridinho dela, de forma gratuita. Estarei a ser parcial na minha avaliação desta pessoa? Provavelmente estou. Um avaliador burocrata dar-lhe-ia excelente. Eu dar-lhe-ia um insuficiente. Por falta de compaixão.

9. Uma (excelente) professora minha, de nome Helena Bicho, ensinou-me, a mim e aos grunhos da minha terra, a reverenciar o nome dos grandes pensadores da História da Humanidade. Um aluno tinha escrito num teste: "O Platão dizia que..." e ela explicou que não era o Platão nem o Sócrates. Era Platão e Sócrates, sem artigo definido antes...

10. ... mas o Sócrates disse que, perante as queixas respeitantes aos aspectos burocráticos da avaliação, verificou a ficha de definição de objectivos individuais de algumas escolas e considerou que não eram nada de muito difícil de preencher. E assim passou um atestado de burrice aos professores portugueses em geral. Acontece que a Burocracia não está no preenchimento dessa ficha, mas nas algemas a que nos acorrentamos ao preenchê-la. E está nas grelhas de avaliação com que vamos ser avaliados. Talvez a Ministra não lhe tenha feito chegar às mãos as ditas. Ou talvez sim. Não sei.

11. Ontem cheguei a casa desanimado. Já o disse. Uma aula minha correu pessimamente, apesar de duas terem corrido de forma impecável e duas delas terem decorrido satisfatoriamente. Tudo porque um aluno não tomou a medicação. Medicação que não tomou porque a mãe ou não lha pôs na mochila (como ele costuma alegar - mas ele alega muita coisa) ou não lhe apeteceu ou, simplesmente, tomou-a e decidiu fingir que a não tomou.

12. Um dos filmes que me marcou, e que marcou a muita gente, foi o "Voando sobre um ninho de cucos". A moral é conhecida: seria um atentado à condição humana modificar comportamentos utilizando meios químicos. Seja. O certo é que se aquele aluno não tomar a medicação, começa a disparatar e a desobedecer da forma mais exuberante e alienadamente criativa que se possa imaginar. E ontem disse-me: "É o pior professor que eu tenho" e, ignorando qualquer esforço meu para que houvesse ordem, escreveu no quadro "O Setor Bouca emerda".

13. Hoje de manhã, sábado, fui com alunos a uma caminhada. Terminámos no parque da cidade. Falei com encarregados de educação que nos acompanharam. Jogámos ao mata. Os professores ganharam. Fizémos um piquenique. O sol de Outono passava entre as já meio despidas folhas das árvores junto ao ribeiro. Uma aluna, que toma a mesma medicação que o aluno atrás mencionado, conversou amenamente comigo. Foi bom. Senti-me um bom professor.

14. Estava no meu primeiro ano de professor. Em Mértola. "Não lhes mostres os dentes e nunca perdoes", diziam-me. E eu, crente na bondade das crianças, mostrei-os. Tive a devida paga com a indisciplina que cai sobre os ombros de quem se atreve a acreditar nos bons sentimentos dos outros. Um dia, depois de corrigir vinte e tal testes de Matemática com notas na sua maioria miseráveis, cheguei à sala e comecei a distribuí-los. Instala-se o burburinho típico do "quanto é que tiveste" e do "deixa ver o que é que respondeste a esta". Um aluno (do ensino especial) recebe o teste das minhas mãos, vê a nota e senta-se no chão a chorar. Tento falar com ele e dizer que o importante não é a nota do teste, mas o esforço e o empenho que ele me venha a demonstrar. Mas ele não é capaz de dizer palavra entre os soluços. Uma colega, que se pusera ao seu lado para o confortar, diz-me: "não é isso, professor, é a primeira vez que ele tem um Excelente".

15. Não sei que avaliação vem aí depois das operações de cosmética simplificativa deste governo. Não sei. Eu avalio-me todos os dias. Sofro quase todos os dias com a minha própria avaliação. Sofro também com a avaliação dos outros. Mas para mim, Manuel Anastácio, o Setor Bouca não emerda. Nem que o meu avaliador tome a medicação direitinha todos os dias.


Manuel Anastácio