Medo?! Medo apenas do dia em que tenhamos que engolir os nossos princípios e a nossa dignidade.
Haja coragem!
Este blogue reúne textos de Pedro Nuno Teixeira Santos, docente do Quadro de Zona Pedagógica de Faro (Grupo 230), colocado na Escola Básica dos 2º e 3º Ciclos do Agrupamento Vertical de Escolas Dr. Garcia Domingues, em Silves. Porém, nenhuma das informações anteriores é tão importante como a seguinte: adoro ensinar!
” (…) avaliar é atribuir valor: é determinar se as coisas são boas ou más. A avaliação política consiste, portanto, em atribuir valor às políticas, às suas consequências, ao aparato institucional em que elas se dão e aos próprios actos que pretendem modificar o conteúdo dessas políticas.” (Barry, 1975).
Avaliação tem sido a palavra que porventura terá vertido mais tinta nos últimos tempos, fruto de intervenções mais ou menos honestas nos meios de comunicação social e em conversas de rua. Despoletou pelo menos uma reflexão por parte dos cidadãos, coisa rara nos tempos que correm, pois tudo indiciava que, tal como Eugénio de Andrade escrevera um dia, o nosso estado de passar ” (…) pelas coisas sem as ver, / gastos, como animais envelhecidos: /se alguém chama por nós não respondemos, / se alguém nos pede amor não estremecemos, / como frutos de sombra sem sabor, /… caindo ao chão, apodrecidos”, estaria entranhado em nós, colado à nossa pele, confundindo-se com o fado do nosso descontentamento plácido e lacrimejante, da cruz que a bem dizer, Nosso Senhor Jesus Cristo nos concedeu, para expiarmos em terra os nossos pecados.
Reflectindo bem no assunto, acho pertinente convocar-vos para a aprovação dum modelo de avaliação dos políticos, uma vez que me parece ser uma classe à parte, que exigindo avaliações, não se avalia a si própria nem nunca achou pertinente desenvolver com seriedade mecanismos para que tal acontecesse.
Se nós somos eleitores, se escolhemos os nossos governantes, acode-nos o legítimo direito de lhes exigirmos que sejam avaliados, até porque estamos fartos de sentir na pele as crises sociais e económicas justificadas com a culpabilização da Europa, do Mundo, do Universo, ao mesmo tempo que nos alheamos, sentindo o nosso futuro quase como uma fatalidade sem resposta.
Caro concidadão conhece o seu deputado? Aquele que ajudou a eleger? Consegue avaliar o seu desempenho? Estará ele a desenvolver o seu programa com seriedade? Terá atingido os objectivos a que se propôs? Será assíduo e pontual no seu trabalho?
Não?! Então avaliemo-los segundo determinados parâmetros:
A) Cumprimento do horário de trabalho:
Um deputado com um cumprimento de 100% do seu serviço será sem dúvida excelente; com 98% a 99,9% Muito Bom; com 90 a 94% digamos que seria considerado Bom; Com menos de 90% teria um desempenho não satisfatório ou seja negativo.
B) Apoio aos cidadãos que o elegeram:
Cumpriu o serviço e os objectivos a que se propôs? Empenhou-se? Fora do Parlamento desempenhou as suas actividades relacionadas com a componente não política?
Totalmente? Algumas vezes? Raramente? Nunca?
C) Melhorias sociais visíveis:
Houve progresso no país devido à sua intervenção? Que diferenças existem entre a avaliação diagnostica realizada no início do seu mandato e a actual (ao fim de dois anos de trabalho)? Que classificação obteve numa avaliação externa (feita por cidadãos independentes e acreditados junto do povo)? Qual foi o empenhamento e a qualidade da sua participação no círculo que o elegeu? Qual foi o seu desempenho em incumbências que nele foram depositadas? Relacionou-se com a comunidade? Investigou sobre as necessidades dos eleitores? Desenvolveu um trabalho cooperativo com as populações? Lutou dentro do seu partido político para conseguir melhorias visíveis? Planeou bem as suas intervenções? Diversificou estratégias a fim de encontrar soluções pragmáticas para os problemas quotidianos dos eleitores? Estimulou-os na participação cívica activa da resolução de problemas? Foi promotor dum clima estável ao progresso? Promoveu o trabalho autónomo no Concelho dentro do qual foi mandatado? Com que regularidade avaliou o seu trabalho e os resultados alcançados? O seu portfólio reflecte um trabalho criativo e honesto?
Segundo um estudo realizado por Conceição Pequito, professora do Instituto de Ciências Sociais e Políticas, publicado no passado domingo, dia 14 de Dezembro, os nossos deputados têm um compromisso para com o partido ao qual pertencem e não um compromisso para com o cidadão que o elege. Ainda segundo esta investigadora, os políticos são escolhidos consoante a participação em governos anteriores e não segundo os parâmetros de trabalho positivamente avaliados, desenvolvidos no cumprimento de mandatos anteriores.
Muitas vezes elegemos uma figura que nem chega a exercer as suas funções no Parlamento, refiro-me aos que se deslocam para o Poder ou para Empresas Públicas. Existe inclusive, quem não tendo nascido nem vivido em determinada região, desconhecendo inteiramente a realidade da mesma, seja escolhido para representá-la.
Durante o mandato, o deputado respeita as orientações da sua bancada, sendo esta que responde perante o Partido - aqui se reforça a perversidade das maiorias absolutas.
No que concerne a este último parágrafo, tem havido honrosas excepções dentro das quais distingo a do Deputado Manuel Alegre.
Concluindo, e sem me desviar do tema inicial, propunha que todos os deputados da Nação fossem avaliados em cada dois anos de mandato, segundo os parâmetros que acima assinalei, e que sofressem as sanções respectivas, com efeitos imediatos, levando à expulsão dos que não cumprissem com a frase repetida, quase mecanicamente, sem reflexão, sem sentimento, na altura em que aceita o cargo, prometendo que cumprirá “com lealdade as funções” que lhe são confiadas.
Que se implemente uma avaliação séria aos políticos do meu País!
Que se faça justiça, premiando os fazedores e expulsando os impostores.
Se não quisermos perpetuar a distância cada vez maior e real entre eleitos e eleitores, se o nosso desejo é abolir injustiças, compadrios, corrupção, tenhamos a coragem de defender com clareza e honestidade todos os assuntos e decisões que dizem respeito a todos, cidadãos, trabalhadores, votantes deste Portugal, onde neste momento cabe a inquietação de Chico Buarque:
“Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente nalgum canto do jardim (…)
Esperemos estar a tempo de ainda encontrarmos essa semente escondida.
Merícia Passos
Nota: Os parâmetros enunciados acima, e que sugerem tópicos para a avaliação dos nossos políticos, foram “copiados” embora já de uma forma muito simplificada, do Modelo de Avaliação imposto aos professores.
P.S. - Texto publicado no "Jornal do Fundão" de 01/01/2009
Miguel Torga




Foto: Barlavento online
Contexto: Desabafo assinado pelo meu colega Manuel Ramos no seu "Blogue do Vereador".
Embora, e aparentemente, fora do habitual âmbito deste blogue, não quero deixar de aqui escrever sobre a actual situação que a Educação vive em Portugal. Porque sou professor, e porque a educação é também assunto local, por sinal dos mais importantes para o concelho de Silves.
Começo por dizer, sem qualquer intenção auto-promocional - mas tão-só para evidenciar quanto o problema da avaliação de desempenho não assusta os professores e é apenas uma das questões a que se opõem os docentes -, que sou professor titular, no topo da carreira (antigo 10º escalão), avaliador e que, ao contrário dos meus colegas, segundo este modelo do ME só serei avaliado pelo órgão de gestão e dessa avaliação não decorre consequência alguma para a minha progressão. Estou, por isso, muito à vontade para vos dizer que, ainda assim, estou totalmente contra o que este modelo propõe e à filosofia nele subjacente. O mesmo posso dizer de outros colegas que, ainda que não tendo atingido a nova idade legal de reforma, entenderam requerê-la com prejuízo do abono total da mesma, em completa desilusão pela escola actual. Só isso, a sangria desatada, e nunca antes vista, de experientes e competentes profissionais nos últimos tempos deveria fazer pensar o governo da República. Mas pouco lhe importa: os números, a redução do deficit (os novos professores são mais baratos que os mais antigos), falam mais alto.
Para além deste injusto modelo de avaliação, virado para a redução dos custos e para a melhoria artificial dos resultados escolares (ao ligar a nota do professor às classificações dos seus alunos e ao abandono escolar, como se isso fosse responsabilidade exclusivamente sua!) conforme ficou evidente nos últimos exames nacionais, os professores contestam a divisão da sua carreira em duas categorias, após um concurso por pontos que só teve em conta os seus últimos sete anos de carreira. Os professores contestam um Estatuto do Aluno que mais uma vez promove o facilitismo e penaliza o trabalho burocrático a favor dos mais displicentes, sem atender ao reforço da degradada autoridade docente; os professores contestam a cada vez maior precariedade imposta pelos concursos, que os coloca a centenas de quilómetros de casa durante anos a fio, sem qualquer compensação; os professores contestam uma inútil prova de ingresso na profissão após uma licenciatura especializada em ensino numa universidade cujo currícula é aprovado pelo governo; os professores contestam a arbitrariedade de durante mais de dois anos terem tido a sua carreira congelada e há muitos anos terem aumentos salariais inferiores à inflação; os professores contestam o facto de um licenciado admitido por uma qualquer Câmara Municipal auferir muito mais do que um professor, também licenciado, em início de carreira; enfim, muitas são as razões do descontentamento dos professores. Mas talvez a maior de todas seja mesmo a arrogância, a desfaçatez com que mentirosamente se intoxica a opinião pública contra a classe, a teimosia por detrás do "quero, posso, e mando" da ministra que tem assento na 5 de Outubro. Isso fez transbordar o copo da indignação docente. Isso pôs por duas vezes mais de 100 000 professores na rua.
Feito este primeiro e incompleto esclarecimento, mais em jeito de desabafo, queria deixar a informação de que os professores voltam à luta no dia 3 de Dezembro, com uma greve nacional que deverá também em Silves ser muito expressiva.
Os professores em greve nesse dia pretendem dirigir-se em marcha entre o Jardim Cancela de Abreu e a Câmara Municipal (passando pela Junta de Freguesia) onde deverão ser recebidos pelo Executivo que estará em reunião e ali apresentar um documento que dê conta ao Poder Local (e por interposta pessoa à comunidade local) das razões do seu descontentamento.
É uma forma de simbolicamente pedirem a compreensão para os motivos da sua indignação pessoal e profissional aos que a sua luta prejudica.

Todos os dias os professores salvam vidas...Penso na minha colega a quem uma aluna, com graves problemas emocionais por ter perdido um familiar, agradeceu por, literalmente, a ter mantido agarrada à vida.
Todos os dias há pequenas histórias como estas que morrem, onde têm que morrer, no anonimato.
Afinal de contas, os professores não são super-heróis. Há bons e maus profissionais como em todas as classes. Mas deixem-me desabafar que, apesar de todos os desânimos e frustrações, a maioria gosta do que faz e gosta mais de estar dentro de uma sala de aulas do que estar na sala de professores.
Resta então conhecer as causas da nossa revolta...
Com certeza que há coisas erradas neste modelo de avaliação dos professores que nos querem impor.
Como se pode querer rigor científico e pedagógico, quando pessoas de uma determinada área científica têm que avaliar pessoas de áreas científicas distintas (e, muitas vezes, com mais qualificações académicas)?
Como se pode acreditar num sistema que afecta a avaliação dos professores à taxa de abandono escolar, como se esta dependesse do “professor fazer o pino na sala de aula” e não de complexos factores económicos e sociais que escapam ao seu controlo?
Como se pode acreditar num sistema de avaliação que relaciona, de forma directa, a qualidade de um professor com os resultados dos alunos? Será um professor de Matemática duma escola de Lisboa, onde boa parte dos seus alunos tem explicações, melhor do que um colega do Interior rural do país, onde os alunos não dispõem das mesmas condições facilitadoras do sucesso?
Evidentemente que não estou a defender a “teoria dos professores coitadinhos”, teoria que não suporto, pois nem sempre os alunos que possuem melhores condições à partida são aqueles que alcançam melhores resultados.
E porquê?! Precisamente porque, por melhor que o professor seja, há certos factores humanos imprevisíveis que ele não consegue controlar. Explico de outra forma: um médico pode prescrever a medicação correcta a um paciente mas, de seguida, não o irá acompanhar diariamente para verificar se ele toma os medicamentos de forma correcta.
Logo, se o doente não tomar os medicamentos e não melhorar, o médico não pode, obviamente, ser responsabilizado. Isto deveria ser fácil de entender, mas pelos vistos não é…
Logo, um professor deve ser avaliado, não pelo facto de um seu determinado aluno ter tido negativa, mas por todas as estratégias que utilizou para evitar esse desfecho.
E, sejamos brutalmente sinceros e honestos, não é assistindo a 3 aulas de 45 minutos, num ano lectivo, que se retiram conclusões sobre as qualidades e defeitos de um professor.
Dito isto, esta avaliação é apenas mais um instrumento de uma “política de cosmética”, uma encenação, uma farsa burlesca montada apenas para manobrar a opinião pública, tentando passar a ideia de que o “governo se preocupa com a qualidade do ensino”.
Por amor de Deus, poupem-me à hipocrisia! Se querem melhorar a qualidade dos meus métodos de ensino, mandem à minha escola alguém de reconhecida competência científica e pedagógica que me assista a várias aulas; e que depois me diga tudo aquilo em que eu posso melhorar para ser melhor professor e ajudar os meus alunos.
Mas não me enviem mais das inspecções, como a que tivemos o ano passado na minha escola, em que a única coisa errada que detectaram é que “faltam muitos papéis”.
Ah, os papéis! Tudo no ensino em Portugal se parece resolver com mais um papel…Uma ficha, uma grelha, uma planificação, um plano, etc. Servem de alguma coisa?! Não importa! O que importa é que estejam nos dossiês. Para quê? Para nos protegermos…Para nos protegermos dos pais, dos recursos, da inspecção, …
Os professores estão cansados desta “política de medo” e querem recuperar um pouco da sua auto-estima e do amor pelo simples acto de ensinar.
E não toleram que se queira aplicar à avaliação de professores, a mesma política que o ministério tem aplicado para resolver os muitos problemas do ensino em Portugal: facilitismo!
O ministério insiste em mascarar as deficiências do nosso sistema de ensino baixando, de forma evidente e cientificamente inquestionável, o nível de exigência dos exames nacionais, de forma a conseguir resultados que impressionem a opinião pública. Tudo em nome da tal cosmética...
Evidentemente que o falhanço e o erro do ministério foi pensar que os professores iriam tolerar e engolir este mesmo princípio, aplicado à avaliação do seu desempenho; o pensamento deles foi o de sempre: “os professores preenchem a grelha, não resmungam pois estão habituados e porque vão vender a sua honra profissional a troco de um Bom…”
Pois bem, enganaram-se! Até porque a avaliação é apenas a gota que fez transbordar o copo.
Por isso, por mais que o ministério nos queira “corromper”, comprando a nossa rendição a troco da simplificação do sistema de avaliação, os professores não irão ceder. Porque o que está em causa são anos e anos de “políticas de facilitismo” e de “burocratizar para nada resolver”.
É essencial que a sociedade portuguesa compreenda que se está a viver um momento histórico único, o momento em que se decide sobre a credibilidade do ensino público português.
Não é apenas a ministra e a sua equipa que estão em causa, nem sequer a famigerada “avaliação docente”, mas sim anos e anos de políticas que estão a levar ao fundo o nosso ensino e, com ele, o próprio futuro da nação.
Se desistirmos, a história não terá contemplações para nós, pois teremos desperdiçado a oportunidade de mudar o rumo dos acontecimentos e permitir que o ensino público tenha futuro em Portugal.
O capitão Salgueiro Maia, a propósito da situação que se vivia em Portugal antes do 25 de Abril, terá dito um dia: “Há o estado da democracia, há o estado da ditadura e há o estado a que tudo isto chegou!”
Assim está o estado da educação neste momento. É do futuro dos nossos filhos e do nosso país que se trata e de não de uma simples embirração com a ministra do sector ou um prurido a qualquer forma de avaliação.
No geral, não tenho razões para acreditar que haja mais corrupção, incompetência ou mediocridade entre os professores, do que na restante sociedade portuguesa. Bem pelo contrário!
Dêem-nos paz para trabalhar e um pouco de respeito, se faz favor.
Obrigado.
P.S. - Ao que parece, ontem, dois secretários de Estado terão insinuado ser os professores os instigadores das lamentáveis manifestações de alguns alunos, com recurso ao arremesso de ovos.
Sei bem que a maioria dos professores, pessoas com um mínimo de educação e sem qualquer vocação para bandidos, se limita a "instigar" os seus alunos a estudar e a que compreendam que para ter sucesso na vida é necessário muito esforço e dedicação.
Alguns, mais ousados, "instigam" os seus alunos a pensar pela sua própria cabeça e a tentar mudar o mundo. No final de uma determinada aula de Formação Cívica, como escrevi na altura, disse a uma aluna que "uma única pessoa pode mudar o mundo".
Espero não lhe ter mentido. E, se o fiz, foi sem intenção e peço desculpa por acreditar em utopias...
1. Antes de mais, peço desculpa à Gláucia. O meu comentário ao seu belíssimo livro "Bichos de Conchas" será em breve tratado por mim. Agora não estaria em condições de escrever algo que seja minimamente digno da obra.
2. Já aqui comecei uma série de textos sobre os professores que me marcaram. Hoje, decidi inserir na série alguns comentários sobre um professor, que sou eu, e sobre todos os professores que agora, em Portugal, são quase unanimemente enxovalhados. E incluo no enxovalho algumas "instrumentalizações" por parte de alguns partidos políticos que só estão contra esta Ministra e um ainda pior Primeiro Ministro por razões eleitoralistas. E note-se que o Sócrates, ao dizer que não verga porque não se dirige por motivos eleitoralistas está, de facto, a fazê-lo. Ele sabe bem (e António Costa ou não sabe ou é lerdo de todo ou está a dizer que o que está perdido, perdido está, e para isso não são necessários comentadores políticos) que vergar no assunto far-lhe-ia perder mais votos que mostrar alguma flexibilidade. E, por incrível que pareça, isto tem, intrinsecamente, muito a ver com a avaliação dos professores. Até porque Sócrates, como qualquer político hábil (e Sócrates é um político hábil - caso contrário, como é que alguém sensaborão como ele continua a ser considerado pela maioria dos portugueses como "o melhor que poderíamos ter"?) sabe que mais vale perder 140 mil votos de professores que 4 milhões de votos (mais coisa menos coisa) de todos aqueles que o elogiam. Um professor também é avaliado pelos alunos e pelos pais. E o que se aplica ao povo que vota também se aplica a estes, no contexto da escola.
3. Ontem cheguei a casa completamente desanimado e a caminho da depressão. Não por causa da Avaliação de Desempenho e afins (f***** sei eu que estou, dando por onde der, por isso, já estou resignado). Não porque me considere mau professor ou "joio" que vá ser espadeirado por este ou outro modelo de avaliação. A minha profissão será sempre 95% de desilusão e frustração e apenas 5% de realização pessoal. Mas, simplesmente, porque uma aula me correu mal. Muito mal. Pessimamente. Se o meu avaliador assistisse a esta aula, será que teria o discernimento necessário para compreender que até os "Excelentes" podem ter aulas como esta? Provavelmente teria, mas, com as quotas a apertar, eu seria relegado imediatamente para os "Bons" (porque "regular", meus amigos, é coisa que não sou).
4. O Alberto João Jardim decidiu classificar todos os professores como "Bons" e foi um Deus-me-acuda entre os defensores da Ministra... Estranho. Esses defensores da Sinistra saberão que a nota de "Bom" não é sujeita a quota???? Nada impede os avaliadores de darem "Bom" a todos os professores da escola, dando os poucos "Muito Bons" e "Excelentes" àqueles que aparentam estar na excelência. A medida do Alberto João é, em termos absolutos, lesiva para os professores da Madeira, já que todos são nivelados por baixo. Mas não sei de notícia de professores excelentes que tenham reclamado. Por uma razão (isto sou eu a pensar): por solidariedade para com os colegas que podem não ser excelentes como eles, mas que, provavelmente, são melhores professores que eles. E se há coisa que vejo entre todos os meus colegas é esta solidariedade e esta compreensão ecológica do ecossistema educativo.
5. Enviaram-me, há dias, um mail daqueles meio melosos com sabor à Paulo Coelho, mas que me serviu de motivo de reflexão. Conta a história de uma velha chinesa que ia à fonte buscar água com um cântaro intacto equilibrado numa haste com outro cântaro rachado. O cântaro intacto chega a casa sempre cheio. O cântaro rachado, sempre meio, ou menos. O cântaro rachado lamenta-se. A velha acalma-o e diz: "Reparaste que lindas flores há no teu lado do caminho, somente no teu lado do caminho ? Eu sempre soube do teu defeito e portanto plantei sementes de flores na beira da estrada do teu lado. E todos os dias,
enquanto voltávamos do rio, tu regava-las. Foi assim que durante dois anos pude apanhar belas flores para enfeitar a mesa e alegrar o meu jantar. Se tu não fosses como és, eu
não teria tido aquelas maravilhas na minha casa!". Sorri, e pensei no que a Ministra, lacaios socialistóides e outros bem pensantes poderiam aprender com esta velha. Mas não aprenderão. Estamos numa era onde as metáforas à Paulo Coelho só servem para vender Best-sellers, não para se aplicar à realidade, que é dura e não se compadece de vasos rachados por causa de insignificâncias como flores. Vou dizer algo muito à direita; algo que o próprio Paulo Portas ou o tipo do PNR-ou-raio-que-o-parta poderia perfeitamente dizer: vivemos num país onde delinquentes e parasitas são gratificados com o Rendimento Mínimo Garantido, mas onde trabalhadores sérios, apenas por meia rachadura, poderão ver a sua vida destruída. Eu sei. É feio o que eu disse. Podem riscar, se quiserem. Eu podia fazer delete. Mas não faço.
6. Tive muitos professores que, sob um modelo de avaliação como o que vamos ter (a "simplificação" prometida pelo Sócrates não augura nada de bom) seriam considerados vasos rachados. Graças a eles, contudo, tenho muitas flores que, por vezes, só anos mais tarde vi a florescer. Professores que, quase de certeza, não faziam planificações de aulas formalmente e por escrito. Professores que davam imensas negativas. Professores que eram ou demasiado exigentes ou demasiado permissivos. Professores que não cumpririam metade dos níveis de excelência burocráticos e estatísticos definidos nas fichas de avaliação deste modelo. Professores que serão, para mim, os melhores professores que tive. Enquanto que tive professores muito organizadinhos, e que facilmente seriam classificados como excelentes por este método de avaliação e que eu tenho como sendo, não os piores professores que já tive, mas, simplesmente, as pessoas mais asquerosas que alguma vez me passaram à frente. Exemplos concretos (com nomes e tudo, seja o que Deus quiser) à frente.
7. Um dos meus mais queridos professores de sempre, farmacêutico na minha terra natal, o professor Baptista Rei, sempre foi o contrário de quase tudo o que é considerado excelente nas malfadadas grelhas de avaliação (ver ponto algures mais adiante). Um dia, estando eu a dar aulas nessa mesma escola, encontrei uma mesa vandalizada que me fez vir lágrimas aos olhos. No tampo liso estavam gravadas as iniciais M R e B R. M de Manuel, R de Rui e BR de Baptista Rei. Feitas com pólvora. Por mim, pelo meu querido colega Rui Navalho e pelo professor, depois de termos misturado salitre, flor de enxofre e carvão, com a paciência de alquimistas. Não sei o que pensaria a Ministra e os seus lacaios de tais experiências para-educativas não ortodoxas. Aquele pequeno vandalismo controlado foi uma das experiências que mais contribuiu para a minha felicidade como pessoa (e eu creio que a escola serve para nos tornar mais felizes, a nós, alunos). Provavelmente, não compreenderão. Provavelmente, chamarão ao incidente irresponsabilidade. Por mim, se fosse eu, hoje, a avaliar este meu professor, dar-lhe-ia a nota "Excelente". E as grelhas de avaliação que fossem dar uma volta ao bilhar grande.
8. Uma das professoras mais repugnantes que tive, de nome Filomena Baião (espero que ela um dia digite o seu nome no Google e encontre o recado), era exactamente o oposto. Metódica. Organizada. E permitiu, impávida, que eu fosse humilhado por um queridinho dela, de forma gratuita. Estarei a ser parcial na minha avaliação desta pessoa? Provavelmente estou. Um avaliador burocrata dar-lhe-ia excelente. Eu dar-lhe-ia um insuficiente. Por falta de compaixão.
9. Uma (excelente) professora minha, de nome Helena Bicho, ensinou-me, a mim e aos grunhos da minha terra, a reverenciar o nome dos grandes pensadores da História da Humanidade. Um aluno tinha escrito num teste: "O Platão dizia que..." e ela explicou que não era o Platão nem o Sócrates. Era Platão e Sócrates, sem artigo definido antes...
10. ... mas o Sócrates disse que, perante as queixas respeitantes aos aspectos burocráticos da avaliação, verificou a ficha de definição de objectivos individuais de algumas escolas e considerou que não eram nada de muito difícil de preencher. E assim passou um atestado de burrice aos professores portugueses em geral. Acontece que a Burocracia não está no preenchimento dessa ficha, mas nas algemas a que nos acorrentamos ao preenchê-la. E está nas grelhas de avaliação com que vamos ser avaliados. Talvez a Ministra não lhe tenha feito chegar às mãos as ditas. Ou talvez sim. Não sei.
11. Ontem cheguei a casa desanimado. Já o disse. Uma aula minha correu pessimamente, apesar de duas terem corrido de forma impecável e duas delas terem decorrido satisfatoriamente. Tudo porque um aluno não tomou a medicação. Medicação que não tomou porque a mãe ou não lha pôs na mochila (como ele costuma alegar - mas ele alega muita coisa) ou não lhe apeteceu ou, simplesmente, tomou-a e decidiu fingir que a não tomou.
12. Um dos filmes que me marcou, e que marcou a muita gente, foi o "Voando sobre um ninho de cucos". A moral é conhecida: seria um atentado à condição humana modificar comportamentos utilizando meios químicos. Seja. O certo é que se aquele aluno não tomar a medicação, começa a disparatar e a desobedecer da forma mais exuberante e alienadamente criativa que se possa imaginar. E ontem disse-me: "É o pior professor que eu tenho" e, ignorando qualquer esforço meu para que houvesse ordem, escreveu no quadro "O Setor Bouca emerda".
13. Hoje de manhã, sábado, fui com alunos a uma caminhada. Terminámos no parque da cidade. Falei com encarregados de educação que nos acompanharam. Jogámos ao mata. Os professores ganharam. Fizémos um piquenique. O sol de Outono passava entre as já meio despidas folhas das árvores junto ao ribeiro. Uma aluna, que toma a mesma medicação que o aluno atrás mencionado, conversou amenamente comigo. Foi bom. Senti-me um bom professor.
14. Estava no meu primeiro ano de professor. Em Mértola. "Não lhes mostres os dentes e nunca perdoes", diziam-me. E eu, crente na bondade das crianças, mostrei-os. Tive a devida paga com a indisciplina que cai sobre os ombros de quem se atreve a acreditar nos bons sentimentos dos outros. Um dia, depois de corrigir vinte e tal testes de Matemática com notas na sua maioria miseráveis, cheguei à sala e comecei a distribuí-los. Instala-se o burburinho típico do "quanto é que tiveste" e do "deixa ver o que é que respondeste a esta". Um aluno (do ensino especial) recebe o teste das minhas mãos, vê a nota e senta-se no chão a chorar. Tento falar com ele e dizer que o importante não é a nota do teste, mas o esforço e o empenho que ele me venha a demonstrar. Mas ele não é capaz de dizer palavra entre os soluços. Uma colega, que se pusera ao seu lado para o confortar, diz-me: "não é isso, professor, é a primeira vez que ele tem um Excelente".
15. Não sei que avaliação vem aí depois das operações de cosmética simplificativa deste governo. Não sei. Eu avalio-me todos os dias. Sofro quase todos os dias com a minha própria avaliação. Sofro também com a avaliação dos outros. Mas para mim, Manuel Anastácio, o Setor Bouca não emerda. Nem que o meu avaliador tome a medicação direitinha todos os dias.